Trekking do Cassino: a travessia na maior praia do mundo

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A travessia da Praia do Cassino, para mim, é o trekking mais incrível que já fiz, supera os sentimentos que tive na Serra da Mantiqueira e ultrapassa as emoções vividas na Cordilheira dos Andes. Assim como não dá para comparar o Cassino com um trekking de montanha – simplesmente porque lá não é montanha – não dá para comparar essa jornada com qualquer outra. O trekking do Cassino é único. E o fato de ser a maior praia do mundo pouco importa, de verdade.

Lá, no Cassino, tudo é assustadoramente solitário, incrivelmente remoto e potencialmente espetacular para se ter uma experiência em trekking. E fui para lá sem saber do quanto incrível era. Ainda bem. Minha intenção era apenas fazer uma caminhada diferente, sair um pouco dos tradicionais circuitos que vemos aqui no Brasil. Sendo assim, na busca de fazer algo desigual, intenso e extremo que encontrei a Praia do Cassino, situada no extremo Sul do Brasil.

Travessia feita em out/14 | Publicado em jan/15 | Atualizado em jul/17

 

Sobre a travessia na Praia do Cassino

A praia do Cassino é bastante conhecida no Rio Grande do Sul, o lugar é um dos points no verão, mas isso não quer dizer que o lugar deixa de ser isolado, bem longe disso. O Cassino tem início no Molhes da Barra, em Rio Grande e se estende até o Chuí, fronteira com o Uruguai. Só se vê movimento nos primeiros quilômetros do trekking, depois é solidão garantida.

Segundo dados, o Cassino possui a 224km, mas no GPS que utilizei bateu 235km, ou seja, um verdadeiro abismo horizontal de areia branca e fina, que recebe o nome de maior praia do mundo.

 

Não é a praia mais bonita, não tem a paisagem mais incrível e está longe de ser um trekking badalado, mas a Travessia do Cassino tem uma imensidão e um ar inóspito que bate de frente com qualquer outro grande trekking da América do Sul.

 

A travessia na maior praia do mundo

O trekking Cassino X Chuí começou a ter maior procura em 2017 após a reportagem do Globo Repórter. Sabendo disso, este post foi atualizado e dividido em tópicos para facilitar a captação de informações. 

 

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Acontece nos Campos Neutrais

A travessia Cassino x Chuí acontece na maior praia do mundo, uma faixa de areia deserta e extensa, que vai do Rio Grande até a fronteira com o Uruguai. Um local praticamente virgem que faz parte da história dos Campos Neutrais.

 

O que são os Campos Neutrais?

De forma resumida, os Campos Neutrais eram terras sem dono, uma área neutra, um limite de fronteiras onde nem os espanhóis e nem os portugueses podiam dominar. O local foi palco de muitas disputas entre os dois países.

A treta acabou com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, quando ainda nem existia cachorro quente, e a região ficou sendo um território neutro e, portanto, conhecida como Campos Neutrais. Atualmente é do Brasil, é claro.

 

Grau de dificuldade

O trekking muito difícil. A travessia exige bastante esforço físico, sendo um trekking essencialmente puxado. E, por ser reto, os mesmos músculos são exigidos à exaustão. É fundamental ir com um planejamento impecável e condicionamento físico em perfeito estado – o trekking vai exigir o máximo de você.

 

Extensão e percurso

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

Como disse acima, o trekking bateu 235km. A navegação é simples, sendo uma reta hipnotizante, sem fim, sem misericórdia. Há alguns pontos de referências, como o navio Altair e os 4 faróis: Sarita, Verga, Albardão e o Farol do Chuí

O percurso é feito inteiramente em areia batida. No início (Molhes da Barra) ela se apresenta um pouco fofa, mas depois de aproximadamente 5km se torna areia firme. Cabe dizer também que pode depender muito da época do ano. Fui em outubro.

É preciso deixar claro também que não se trata de uma aventura de final de semana. Há quem faça essa travessia em menos de 7 dias, mas o grau de exigência é altíssimo. Eu, particularmente, não consigo imaginar fazer o trekking do Cassino em menos uma semana, mas vai do objetivo de cada um.

Pode-se optar por dois caminhos: Sentido normal, com início nos Molhes da Barra e término no Chuí, fronteira com Uruguai. Ou fazer sentido ao contrário. Optei pelo sentido tradicional (Cassino x Chuí). Qual você vai encarar?

 

Você pode chamar de muitos jeitos: “Trekking do Cassino”, “Travessia Cassino x Chuí”, “Caminho dos Faróis”, “Trekking do Extremo Sul”, “Trekking da Maior Praia do Mundo”… o que importa mesmo é a experiência que você vai viver nesse lugar. E tenho certeza que será sensacional.

 

As atrações do trekking do Cassino

O trekking do Cassino já carrega todo um significado de superação e por si só já é a maior atração. Porém, há muito o que se ver e apreciar ao longo da caminhada de 235km. No mínimo, são 7 dias de contato com a natureza, ao lado de paisagens incríveis, acampamentos selvagens e toda surpresa que uma longa travessia sempre oferece. Mas, ainda assim, há outros atrativos bacanas para curtir na Praia do Cassino, e a maioria é do início do século XX. Vamos a eles;

 

Molhes da Barra de Rio Grande

Molhes da Barra de Rio Grande

Pode acreditar, amigo leitor, os Molhes da Barra de Rio Grande é uma consagrada obra de engenharia oceânica. No início do século XX, a região da Praia do Cassino era um dos points de naufrágios, para se ter ideia, mais de 200 barcos se perderam por aquelas águas – segundo o Museu Ocenográfico da Furg, se trata de exatamente 287 naufrágios, Então, ali foram construídos os Molhes para dar segurança à navegação, obra que aconteceu entre 1909 e 1915.

 

Os Molhes da Barra são formados por dois quebra-mares, sendo construídos com gigantescas rochas que avançam 4km mar adentro. Um deles está localizado no município de Rio Grande, bem no início do trekking, e o outro em São José do Norte. É possível fazer um passeio e vagonetas e adentrar o oceano – as vagonetas são os carrinhos que levam os turistas, sendo movidos à vela e que deslizam sobre trilhos, controlados por trabalhadores conhecidos como vagoneteiros.

 

Navio Altair

Navio Altair - Praia do Cassino

É ilustre na Praia do Cassino desde junho de 1976, ano de seu encalhe. É um dos cartões-postais de Rio Grande, mas aos poucos está sumindo da paisagem, isso porque está sofrendo com a ação do tempo, com o movimento das águas e com maresia, sendo cada vez mais engolido pela areia. Atualmente, é uma estátua de ferrugem, um pequeno esboço do que ele foi um dia.

 

Na época do fatídico acontecimento, a proprietária da embarcação, a Companhia Libra de Navegação, não quis retirá-lo do mar – devido ao alto custo da operação e também pelo perigo de outros navios encalharem ao tentar salvá-lo. Segundo a Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, a Marinha – órgão que responde pela segurança da costa – só exigira a remoção se o Altair estivesse causando dano ambiental (vazamento de óleo, petróleo, carga venenosa) ou risco à navegação, que não foi o caso e por isso ficou ali e ficará até desaparecer por completo. O navio transportava trigo e estava vindo da Argentina e que tinha como destino o nordeste brasileiro.

 

Farol Sarita

Farol Sarita - Praia do Cassino

O Farol Sarita tirou o Cassino do escuro, isso em 1909. Foi inaugurado em 12 de outubro daquele ano leva o nome de um navio naufragado naquele local. Sua torre possuía 26 metros de altura e seu alcance era de 15 milhas – entenda-se 24 quilômetros. Foi substituído em 1929 por outra torre com sistema luminoso automático. Em 1952, foi inaugurada a atual torre de alvenaria, 11 metros mais alta que a original. Atualmente opera com uma lanterna de acrílico.

 

Passar por faróis, cruzar destroços, enxergar naufrágios e se surpreender com o que a maré pode trazer, além, é claro, de percorrer 235km a pé. Pode-se esperar muito da Travessia do Cassino.

 

Farol Verga

Farol Verga

O Farol Verga possui apenas 11 metros de altura, é o mais tímido deles, sendo construído em 1964. Possui uma base de alvenaria que até anos atrás ficava aberta, mas atualmente é toda fechada em concreto. É um ótimo local para acampar.

 

Farol do Albardão

Farol do Albardão

O farol do Albardão foi o primeiro a ser construído. O primeiro tinha uma torre de ferro com 35 metros e seu alcance era de 18 milhas (29 quilômetros). A torre atual é de 1948 e possui 44 metros de altura, sendo habitado por funcionários da Marinha do Brasil.

Continue lendo, mas veja também este post sobre o Farol do Albardão.

 

Não importa como você vá: a pé, de bicicleta, independente, com agência… o que vale mesmo é se jogar nesse abismo horizontal e ter a experiência de fazer uma travessia intensa e extrema.

 

Lagoa Mangueira

A Lagoa Mangueira acompanha grande parte do trekking do Cassino, estando paralela à caminhada. Essa lagoa possui 123 quilômetros de extensão e se localiza numa área total de 800 quilômetros quadrados. É considerada uma das formações geológicas mais recentes da Terra, com apenas 4,5 mil anos. Não a conheci por inviabilidade técnica, mas fica aí a sugestão. E quem for fazer a travessia Cassino x Chuí com carro de apoio certamente terá essa oportunidade.

 

Boia

Boia - Praia do Cassino

Uma gigante boia de ferro de navio ficou presa à areia já tem uns anos. Não consegui informações complementares, só sei que virou um ponto turístico e rende boas fotos.

 

Concheiro

Concheiro - Praia do Cassino

O concheiro, como o próprio nome sugere, é um lugar onde a areia deu lugar às conchas – de todas as formas, cores e tamanhos. A grande quantidade até assusta, formando uma paisagem única no Brasil, cujo nome foi dado de Praia dos Concheiros.

 

Curtir o isolamento, apreciar o silêncio e ter a sensação de fazer do algo sensacional.

 

Hermenegildo

Praia de Hermenegildo

A Praia do Hermenegildo, popularmente chamada de Hermena, é avistada no último dia de trekking, se trata de uma praia bastante charmosa, formada por dezenas ou até mesmo centenas de casas. É nela que a civilização volta a aparecer, sendo parada obrigatória para tomar algo gelado. É um popular balneário tradicional, um “point” de surfistas e jovens, considerado também o paraíso dos pescadores.

 

Barra do Chuí

Molhes do Chui

É o lugar onde termina o trekking. Esse “paredão” aí é o que faz divisa com o Uruguai. É uma praia bastante urbanizada e com vista para o Farol do Chuí.

 

Farol do Chuí

Farol do Chui

Foi fundado em 1910, sendo substituído em 1949 por um novo, obedecendo aos novos padrões. Hoje em dia é considerado um dos faróis mais modernos do Brasil. Possui iluminação automática com alcance de 30 milhas (48 quilômetros).

 

É dor que não acaba mais. É mentira se eu disser que este é um trekking gostoso de se fazer. De fato, amigo viajante, não é. Mas é uma dor boa, é dor que liberta. É um sofrimento que lustra nossa alma e dá brilho ao nosso espírito.

 

A melhor época para fazer o trekking do Cassino

Não sei dizer qual a melhor época para fazer o trekking do Cassino. Motivo? O verão (entre dezembro e março) é intenso, com temperatura que atinge facilmente os 30°C. Diferente da montanha, lá não tem ar frio e nem vegetação para amenizar a sensação térmica. Já o inverno (entre junho e setembro) é bastante rigoroso, chegando sem esforço na casa dos 10°C, com rajadas de vento e sensação térmica bastante inferior. Nas estações intermediárias, isto é, na primavera e outono, a temperatura costuma ficar amena, mas não isenta de chuvas e ventos ferozes.

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Quem pode fazer a travessia Cassino x Chuí?

A travessia da Praia do Cassino é muito difícil, mas qualquer pessoa pode fazê-la desde que esteja em boas condições de saúde, bastante condicionada e habituada com travessias e acampamentos selvagens. Sedentários devem evitar, uma vez que é um trekking que exige muito condicionamento físico – muito mesmo. Ter experiência na atividade é igualmente importante. Iniciantes devem fazer com guias e profissionais habilitados.

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Trekking do Cassino, com ou sem guia?

Vai depender muito da experiência e do objetivo de cada pessoa. Eu, por exemplo, fui de maneira independente, sem guia, onde tive que levar todos meus equipamentos nas costas por 235km. Não aproveitei muito o trekking – no sentido de relaxar, curtir na boa e admirar a praia com os ombros leves. Sendo assim, ir de maneira independente é um jeito penoso e que requer exímio planejamento, além disso, a travessia Cassino x Chuí não tem espaço para erros. Tem que saber o que está fazendo, já que lá não existe rota de fuga (como muitas vezes temos na montanha).

Ir com agência é um considerável aumento de segurança e que não tira o mérito nenhum, sendo um conforto a mais, já que não terá que carregar todo o peso nas costas e, ainda assim, usufruirá de certas mordomias, principalmente com relação à alimentação e montagem de acampamento. No mais, é chão de 235km para todo mundo.

Conheço duas ótimas agências:

Roraima Adventures: saiba mais aqui!

Sol de Indiada: saiba mais aqui!

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Como chegar na Praia do Cassino

É necessário ir a Porto Alegre e depois ir para a rodoviária do centro da cidade. Depois disso, pegar um ônibus para Rio Grande, cujo tempo de viagem é de aproximadamente 4 horas. Neste trecho, pedir para descer no “Bar do Beto” e de lá pegar um bus circular até a Praia do Cassino.

É possível comprar a passagem de Porto Alegre p/ Rio Grande através do site da Veppo: www.rodoviaria-poa.com.br

Preço: de R$ 84,00 a R$ 109,00 (consulte no site acima)

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Voltando para Porto Alegre

Como o trekking acaba no Chuí, fronteira com Uruguai, é necessário (muitas vezes) fazer baldeação em Pelotas para depois ir até Porto Alegre – até 2014, ano que fiz o trekking, não havia ônibus com saída diária para a capital gaúcha.

 

O que levar para a travessia da Praia do Cassino?

Antes de fazer o mochilão para a travessia na pPraia do Cassino, lembre-se: você terá que levar tudo nas costas. Por isso, tudo deve ser feito devidamente planejado. Leve somente o essencial, mas não negligencie o frio que faz por lá. Leve roupas apropriadas.

A sua carga deverá ser dividida em três categorias:

 

1º Equipamento de trekking

2º Equipamento de camping

3º Comida / água

 

Esta lista poderá diminuir ou aumentar conforme estilo e gosto de cada pessoa, ok? Sendo assim, vou colocar aqui o que eu considero absolutamente necessário.

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Equipamentos de trekking

Vestuário

  • Roupas íntimas
  • 1 segunda pele completa, underwear calça e blusa
  • 2 pares de meias próprias de trekking
  • 2 ou 3 camisetas de trekking – 1 ou 2 calças táticas (calça que vira bermuda)
  • 1 calça de fleece para dormir
  • 1 par de botas / tênis de corrida
  • 1 corta vento
  • 1 fleece para dormir
  • 1 anorak (impermeável)
  • 1 casaco de polartec 200
  • 1 bandana

 

Equipamentos

  • Mochila cargueira entre 55 e 75 litros
  • Bastão de trekking (seus joelhos vão agradecer)
  • Camelbak de 3 litros
  • Lanterna ou headlamp c/ 2 pares de pilhas
  • Canivete
  • Sacos plásticos (para lixo e roupas sujas)
  • GPS (embora seja só uma reta, é importantíssimo saber a quilometragem rodada para ter um plano planejamento de trip)
  • Kit primeiros socorros (curativos, remédios, protetor solar)
  • Hidrosteril/clorin

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

 

Equipamentos de camping

  • Barraca
  • Isolante térmico
  • Saco de dormir com 0ºC de conforto (depende da época e de cada pessoa)
  • Liner (Thermolite) – Este pode ser muito útil 
  • Fogareiro a gás
  • Gás Tek Butano / Propano
  • Panelas/Talheres de camping
  • Pequena esponja para lavar louça e pedaço de sabão em pedra (biodegradável)

 

Comida

Há diversos tipos de alimentações para camping. Pode optar por comida desidratada (liofilizada), comida pronta (do estilo Vapza e Alimentação), além de outras opções. Na época, levei alimentação pronta por não saber a quantidade de água que havia no caminho. Sendo assim, indico que levem comida liofilizada, já que possivelmente água não será problema ao longo do caminho.

 

Água

Ao longo do trekking do Cassino há muitos arroios, ou seja, pequenos córregos de água doce e limpa que desembocam no mar, mas não sei informar exatamente se é permanente ou sazonal, isto é, se em épocas mais secas o fluxo é o mesmo. Fui em outubro e achei água abundante, principalmente até os 180km de trekking, depois os arroios foram ficando mais tímidos.

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

***

O planejamento

O trekking do Cassino, que chamamos de Expedição Cassino, começou no momento que iniciamos o planejamento. A falta de informação sobre o local fez com que a gente se preocupasse ainda mais com a travessia. Não sabíamos sobre as dificuldades que encontraríamos, não tínhamos, por exemplo, o conhecimento se havia água pelo trajeto. Na época, em 2014, não havia registro na internet sobre esse trekking, tampouco tracklogs. Conseguimos orientações com duas empresas que organizam saídas na região, a Roraima Adventures e o Sol de Indiada. As duas foram muito generosas com a gente e nos passaram ricas dicas do trekking e de todo o percurso. Sendo assim, conseguimos organizar a travessia de maneira independente, sem apoio, em um dos lugares mais ermos do Brasil.

Estávamos diante de uma grande aventura, um caminho de 235 km, desconhecido e inóspito. A travessia na Praia do Cassino se confirmou em 18 de outubro de 2014 quando colocamos os pés na areia e decidimos realizar o desejo de fazer algo incrível, de atravessar a pé a maior praia do mundo. E assim fizemos e foi sensacional.

 

Mapa da travessia

 

O relato da aventura: o trekking na maior praia do mundo

Partimos dos Molhes da Barra do Cassino, em Rio Grande, com destino aos Molhes da Barra do Chuí, fronteira com Uruguai. Desde o início, tínhamos a consciência de que encontraríamos pessoas apenas no primeiro dia de caminhada, já no segundo em diante só teríamos a companhia um do outro.

O trekking foi feito junto com a Gisely Bohrer do blog A Montanhista.

Travessia Cassino x Chui - O trekking na maior praia do mundo

Travessia Cassino x Chui – O trekking na maior praia do mundo

 

Batizamos o trekking do Cassino como Expedição Cassino, fato que causou alguns incômodos no meio virtual. O objetivo da travessia não era fazer referência a nenhuma descoberta — sabemos o significado da palavra “expedição” — tampouco tivemos a intenção de comparar com nenhum grande explorador. Aliás, o mundo já está praticamente todo mapeado, fora que não há mais Amundsen, Scott, Shackleton por aí. A intenção sempre foi de brincar e tornar o trekking divertido. O mundo já é sério demais.

 

1º dia – A realidade do trekking

Não tinha bagagem alguma em trekking de praia e não fazia a menor ideia do que esperar da travessia do Cassino. Então tudo que fosse acontecer ali seria novidade para mim. E de cara, logo nos primeiros 5km de caminhada senti o drama que seria os 230km restantes. O que pegou mesmo é que esses primeiros quilômetros foram sobre areia fofa e molhada, algo que parecia mais uma lama do que necessariamente areia de praia, talvez até fosse lama mesmo, mas depois de umas duas horas esse “probleminha” foi resolvido, porém foi algo que desgastou bastante para um começo de trekking. Uma coisa é andar em chão de areia batido, outra é andar com cargueira em chão pegajoso e fofo. Mata qualquer pessoa. E matou todo o planejamento do primeiro dia, fez demorar mais tempo, desgastar mais.

Sabia que iria encontrar pessoas apenas no primeiro dia, e no segundo em diante só teríamos a companhia um do outro. Estávamos levando 27kg em cada cargueira. Sofríamos com isso.  Mesmo com a experiência que tínhamos e com a preocupação em utilizar equipamentos ultraleves, não conseguimos aliviar a carga. Nossa preocupação girava realmente em torno da água. E tínhamos que levá-la. Além disso, estávamos levando comida para 8 dias e tivemos que optar por refeição semipronta, já que não podíamos arriscar a levar comida liofilizada, novamente por medo de não encontrar arroios (curso de água) pelo caminho.

Vivenciava uma nova realidade em trekking, uma caminhada plana, fora das montanhas, mas extremamente árdua. Nos primeiros 12 km lidamos com um encontro inesperado, um peregrino vindo em nossa direção, desistindo do façanha.

— O que aconteceu? – Perguntamos a ele.

— Não dá. Ontem andei praticamente 40km, me esforcei ao máximo. Não estou preparado para isso, acho que é loucura demais. Estou voltando – Respondeu-nos.

Desejamos sorte ao viajante solitário e partimos. Aquele depoimento, logo no primeiro dia, fez com que analisássemos ainda mais sobre o que estávamos fazendo, mas permanecíamos totalmente decididos em prosseguir e não havia nada que pudesse tirar esse objetivo de nós. Não era loucura. Não era um ato não planejado. Não era impulso. Estávamos preparados e confiantes.

No km 16 já sofríamos com dor, se tratava do peso excessivo da mochila. Percebemos também que a paisagem seria dividida em três partes: mar, horizonte infinito e dunas. Será que estávamos fadados a esse cenário até o final de nossa travessia? Era o que eu vivia me perguntando — não que aquilo me incomodasse. Gostava do que via e era novidade para mim, se tratando de ambiente de trekking, é claro.

O objetivo era fazer pelo menos 30 km no primeiro dia, mas tínhamos saído tarde e uma tempestade se formara a oeste. Tivemos que fazer um acampamento de emergência, diante de ventos fortes e céu preto. Na realidade, não fomos pegos de surpresa, estávamos contando com esse tipo de imprevisto, mas uma coisa é prever, outra é vivenciar uma tempestade. Estávamos diante disso, logo nos primeiros 19 km de trekking.

Nos dirigimos para a parte de trás das dunas para não sermos o ponto mais alto da praia. Armamos o acampamento com rapidez e não tardou a começar a tempestade. Estávamos em 2 barracas, Gisely Bohrer em uma, e eu numa outra. A noite foi pavorosa, ouvíamos e víamos – através das barracas — raios caindo “próximos” a nós. Era difícil calcular a distância, mas estávamos convictos que permanecíamos no meio da tempestade. Os barulhos dos trovões surgiam instantaneamente aos raios. Isso denunciava proximidade.

Em determinado momento pensamos que a nosso trekking estaria comprometido, mas levamos aquele primeiro desafio como um aviso da natureza. Estávamos na condição de coadjuvantes e aquele perrengue nos alertou sobre essa realidade. Ainda tínhamos mais de 200 km pela frente.

 

2º dia — Isolamento

Como cena de filme, o dia amanheceu numa paz espantosa. cordamos aliviados e seguimos em frente. O tempo estava cinza, mas sem ameaçar nova tempestade. Não demorou muito e encontramos um dos maiores ícones da Praia do Cassino: o naufrágio do Altair. Para chegar até o navio tivemos que atravessar um arroio bem complicado, tiramos as botas — um dos rituais da travessia – e cruzamos com a água pela cintura. Ficamos impressionados com a embarcação, já quase totalmente corroída pelo mar. Seguimos em frente após alguns minutos.

Se no primeiro dia parávamos a cada 4 km para descansar, no segundo tivemos que reduzir para 3 km. Já sentíamos os músculos fadigados, unicamente pelo peso excessivo. Sofríamos muito mesmo dividindo a carga devidamente pelo corpo. O peso era a nossa maior sentença. Fora que caminhar em terreno plano não exige muito de toda a musculatura da perna, ou seja, os mesmos músculos são massacrados o tempo todo, até exaustão, sem revezamento — fato que não acontece na montanha.

Durante a travessia, o principal obstáculo era desviar o pensamento da dor, era realmente desconfortável e nos questionávamos várias vezes sobre o nosso condicionamento físico. Será que faltou preparo? Treinamos inadequadamente? Por que estávamos passando por tanta dificuldade? As respostas a esses questionamentos apareceram somente no final da expedição.

Antes de montar o acampamento do segundo dia, fomos presenteados com uma das maiores paisagens de nossas vidas, estávamos diante um pôr do sol magnífico. O céu já estava bem próximo de escurecer, e enxergávamos tons de vermelho, púrpura, laranja, azul e amarelo. Essa luminosidade multicolorida refletia nos arroios e no mar. Avistávamos também alguns cavalos selvagens correndo de um lado para o outro agigantando a paisagem rara. Foi um dos momentos mais incríveis da travessia, ficamos emocionados com aquela cena e nos sentimos privilegiados por estar ali.

Chegávamos ao final do segundo dia com apenas 20 km percorridos. Estávamos lentos e de certa maneira desorganizados. Perdíamos muito tempo nos arroios, quase sempre tínhamos que tirar as botas e isso demandava muito tempo. Além disso, fazíamos paradas longas, que contribuíam fatidicamente para não completarmos os 30 km estabelecidos, meta mínima diária que havíamos combinado para o trekking da Praia do Cassino.

Eu tinha a consciência que precisaríamos ter outra postura nos dias subsequentes, porque do jeito que estava iríamos completar a travessia em 11 dias. Mas não tínhamos tempo e nem comida para isso. Já de noite, Gisely Bohrer fez as contas de quanto deveríamos andar nos próximos dias. Ficou definido que teríamos que fazer 35 km no próximo dia. Caso isso não acontecesse, teríamos que voltar. Estava decretado!

 

3º dia — Tudo ou nada

Iniciamos a caminhada às 8h e bem cientes de nosso compromisso. Definimos que iríamos descansar a cada 2km e fazer 5 minutos de pausa. Foi assim que fizemos. Tivemos uma média de 4 quilômetros percorridos por hora e achamos o ponto de equilíbrio nesse planejamento definido. Teríamos que tirar os atrasos dos dias anteriores e destruir de andar nos próximos dias. Às 13h já havíamos andado 20 km, ficamos orgulhosos e pela primeira vez vislumbramos a possibilidade de completar a travessia.

A segunda parte do dia foi mais complicada. Eu já sentia dor na lombar e também vivia o desconforto de algumas bolhas nos pés. Durante o período da tarde o sol castigava bastante, éramos obrigados a ficar de blusa para não pegar insolação. Não havia sombra na praia, só existia o imenso abismo horizontal para atravessar. Independente das dores, sentíamos seguros e confiantes na travessia.

Orientávamo-nos por GPS, mas havia também os faróis, quatro deles ao longo dos 235km, para seguir como referência. Somente neste terceiro dia que conseguimos alcançar o primeiro, denominado de Sarita, que ultrapassamos já no final da tarde, fazendo o acampamos 6km à frente dele, entre dunas. Conseguimos bater a meta estabelecida e fechamos o dia com 36 km. O trekking do Cassino iria continuar.

Tivemos uma noite tranquila, mas nossos pés estavam começando a incomodar. A mochila não dava trégua, se encontrava — ainda — exaustivamente pesada. Não reclamávamos de dor, já estávamos nos acostumando àquela situação. A meta do dia seguinte era alcançar o outro farol, denominado de Verga.

 

4º dia — 38 km de caminhada

O ritual de acordar, tomar café e desmontar acampamento é sempre demorado, mínimo de 1 hora. Mas nesse dia acordamos bem cedo, às 7h30 já estávamos caminhando

Permanecemos com o mesmo planejamento, descansávamos a cada 2km e parávamos por 5 minutos. Em dado momento do dia fomos surpreendidos por um carro. Tivemos o encontro com o ICM BIO. Eles ficaram admirados em encontrar alguém naquela praia deserta, conversamos um pouco sobre a nossa travessia e fomos informados que não era comum encontrar peregrinos por ali. A pedido deles tiramos uma foto e, após isso, seguimos em frente. Ficamos contentes com o encontro, já que era mais uma maneira de registrar a nossa travessia.

Durante a tarde já sentíamos cansaço excessivo. Mudamos a tática e começamos a descansar a cada 1 km. Gisely Bohrer e eu estávamos com os pés destruídos, com a sensação de inúmeras bolhas nos pés. O fato era verdadeiro e só descobrimos no momento em que tiramos as botas na hora de dormir.

Se o cansaço era extremo, existia uma grande justificativa. Encerramos o dia com 38km percorridos e havíamos ultrapassado o 100km da nossa brincadeira. Acampamos exatamente na base do Farol Verga. Ao deitarmos na barraca sentíamos um cansaço incomum. Eu percebia as batidas do coração nos meus dedos. Compreendi que estava desrespeitando meu corpo e fiz um pedido ao Universo para que me permitisse continuar. Eu precisava concluir a travessia.

Nesse momento do trekking nos encontrávamos em situação perigosa, porque estávamos praticamente no centro da praia e muito distante da civilização. Tínhamos na cabeça que não poderíamos ter problemas e que teríamos que continuar andando. Não havia outra saída e estávamos ali para isso, para atravessar a maior praia do mundo.

As paradas que fazíamos a cada 2 km não representavam necessariamente um descanso, durante a pausa sentíamos espasmos musculares e a retomada da caminhada era muito árdua. Os primeiros passos aconteciam com muita dificuldade e somente após 50 metros que conseguíamos manter um ritmo uniforme. Nunca senti uma dor parecida como aquela, na realidade, eu estava vivendo uma verdade muito diferente da montanha em todos os aspectos. Era um trekking diferente.

 

5º dia — A noite no Farol do Albardão

O quinto dia tinha como destino o Farol do Albardão, uma base habitada e protegida pela Marinha do Brasil. Realizamos um contato prévio e conseguimos uma autorização para pernoitar por lá. Mas antes disso, teríamos que andar mais 30km. Iniciamos a jornada às 8h45 e notamos que o cenário era mais bonito, o mar se apresentava mais azul, e as areias mais brancas e soltas. Era bonito de se ver. Notamos também um sol mais forte. Tivemos a surpresa de encontrar uma baleia morta na areia, deduzimos que se tratava de uma Jubarte. Durante a travessia era normal encontrar animais mortos, nos deparamos com tartaruga, arraia, tubarão, leão marinho, água viva, pinguim e até outros animais que não soubemos identificar. Eram cenas corriqueiras durante a nossa caminhada.

Não havia nada pior do que andar à espera do farol aparecer. Fora o cansaço físico, a expectativa de enxergar algo no horizonte também gerava uma angústia emocional, que refletia ainda mais em nossos corpos, já totalmente judiados pela longa travessia. Completaríamos nesse dia um total de 143 km.

O diálogo entre nós também era escasso, cada um cultivava um pensamento e era raro externar alguma ideia ou emoção. Sabíamos que cada um estava doando o máximo de si e ninguém exigia nada de ninguém, exceto o respeito pelo tempo de descanso nas paradas — pode parecer ridículo, mas esse ritual, que parecia mais uma obediência militar fez toda a diferença. Já havíamos recuperado grande parte do tempo perdido dos primeiros dias. Estávamos dentro do planejado e já vislumbrando os 80km finais.

No Farol do Albardão fomos recebidos gentilmente pelo Sargento Rafael, este nos guiou até uma casinha situada ao lado do farol. O primeiro contato foi um choque, já que ele esperava encontrar pessoas ao estilo brutamontes, mas o que viu limitou-se a peregrinos em estado lastimável, perdidos no deserto, no meio do nada, sob um sol de mais de 30 graus. Observamos um olhar de surpresa misturado com uma impressão de pena. Quebramos o gelo perguntando sobre o lugar e recebemos muitas informações interessantes sobre a região, e também sobre o farol no qual nos encontrávamos. Ele nos deixou à vontade na casa e ressaltou que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário para nos refazermos. Aproveitamos que ainda havia sol e lavamos nossas meias e algumas peças de roupas. Pulamos de alegria ao perceber que tínhamos um chuveiro. Conseguimos também organizar nossas tralhas e ajeitar as mochilas.

Nos encontrávamos em uma residência da Marinha do Brasil, no meio de um deserto e isso era empolgante. Fizemos coisas que não tivemos tempo de fazer nos dias anteriores, como por exemplo, limpar as mochilas, contabilizar as comidas, separar lixos e, principalmente, descansar numa cama. Aproveitamos o ambiente limpo e conseguimos tratar nossos machucados de forma correta. Estourávamos as bolhas dos pés com ar de diversão — e até competíamos para vem quem possuía mais. Dormimos em paz naquele dia.

 

6º dia — Descansar ou continuar?

Tivemos que tomar uma grande decisão logo de manhã: permanecer mais um dia em descanso, a fim de buscar uma melhor reabilitação, ou partir naquele instante? Concordamos em partir, já que não queríamos perder tempo e tampouco gastar 1 dia de comida. Era arriscado.

Antes de sair, fizemos nossos curativos, mas notamos que não havia mais esparadrapos, incrivelmente estávamos utilizando todos os medicamentos que trouxemos para o trekking do Cassino. A única coisa que possuímos à disposição era uma fita silvertape. Fizemos nossos curativos com ela, colocando papel higiênico sobre os machucados e fechando com a fita. E não é que o improviso deu certo?

Não encontramos nenhum oficial da Marinha pelos arredores e deixamos um bilhete de agradecimento ao Sargento Rafael. Seguimos em frente e em algumas horas o Farol do Albardão se perdeu de vista. Eu e Gisely caminhávamos bem e sentíamos mais confortáveis com a mochila. Seguimos com passos largos.

O destino deste dia era uma incógnita, já que tínhamos um contato com um morador que vivia isolado em meio às dunas, mas não tínhamos certeza se o encontraríamos. Independentemente do que acontecesse, o horizonte era nosso destino.

Durante esse dia, percebemos que os arroios, comuns de serem vistos no início do trekking, já não apareciam com tanta frequência, quando avistávamos algum, estava seco. Ficamos grande parte do dia com medo de não encontrar água. Já próximo ao pôr do sol, estávamos praticamente sem nada e precisávamos captar água de algum lugar. Havia uma lagoa a cerca de 3km a oeste e cogitamos fazer um ataque até lá. Tínhamos também a opção de cavar, já que estávamos sobre um lençol de água. Durante essa conversa já havíamos caminhado cerca de 30km, quando presenciamos um carro se aproximando da gente. Enquanto o veículo se dirigia a nós, combinamos em não revelar o nosso desespero por água. Imaginamos que seria o Ricardo, o morador da região. Acertamos, era o próprio.

O veículo parou próximo, e nós perguntamos:

— Ricardo?

Ele: — Isso. Pensei que vocês fossem chegar ontem.

— Tivemos um atraso por conta de tempestade do primeiro dia — Justificamos.

Ele: — Coloquem as mochilas atrás da caminhonete e subam.

Em menos de 500 metros avistamos a entrada da residência do sujeito. Se estivéssemos a pé passaríamos direto, já que a casa fica escondida em meio às dunas. Ricardo nos ofereceu um excelente quarto para descanso, além disso, tivemos a oportunidade de tomar banho.

Já de noite, tivemos um belo jantar e também pudemos tomar chimarrão. Conversamos bastante e agradecemos inúmeras vezes a hospitalidade e a gentileza em abrigar desconhecidos em sua residência, que parecia mais um paraíso em meio ao deserto. Depois de muito bate-papo o relógio já denunciava meia noite. Tínhamos que dormir. Fomos para o quarto e capotamos.

 

7º dia — O acampamento final

Logo de manhã iniciamos os preparativos, enchemos nossos camelbaks, organizamos as mochilas e saímos. Mais uma vez, agradecemos o Ricardo pela estadia. Antes de seguirmos em frente, retrocedemos aproximadamente 300 metros, não apenas para descontar os pequenos metros de carona, mas para tirar algumas fotos na famosa boia, que é também um dos ícones da travessia do Cassino. Ela também sinaliza que a partir daquele trecho se forma o conchal, onde praticamente toda a areia da praia fica coberta por conchas. É incrível de se ver.

Estávamos em nosso penúltimo dia e tínhamos mais 30km pela frente, permanecíamos determinados e caminhávamos convictos. No período da tarde ultrapassamos os 200km e fizemos ligeira comemoração. Sentíamos pela primeira vez que o fim se aproximava. O sol já estava prestes a se extinguir quando batemos os 30km do dia. Tínhamos a necessidade de encontrar um local de acampamento, e Gisely descobriu um ótimo lugar em meio às dunas, piso gramado e próximo de um arroio. Foi perfeito.

Havíamos andado mais de duzentos quilômetros e tínhamos nos transformado em puras máquinas de caminhar, não mais capazes de parar e pensar, pelo menos até o fim da travessia.

Nessa noite estávamos mais dispostos e pela primeira vez conseguimos desenvolver um diálogo mais tranquilo. Tivemos a ideia de sair de madrugada, não somente para eliminarmos os últimos 32 km que tínhamos pela frente, mas também para tentar chegar ao destino antes do pôr do sol.

 

8º dia — A última alvorada 

Dito e feito, acordamos às 4h30 e às 5h30 já caminhávamos. Vimos o nascer do sol e até e ficamos admirados com a luz emergindo sob as águas. Em poucas horas chegamos em Hermenegildo, um vilarejo que antecede os molhes do Chuí. Paramos na pequena cidadezinha e tomamos uma Coca-Cola gelada. Restavam ainda 15 km pela frente e o sentimento de conquista já estava no ar. Se antes estávamos isolados, nesse momento presenciávamos um ambiente diferente, com pessoas e alguns carros passando beira-mar.

As dores não davam tréguas e na etapa final sentíamos um cansaço forte. Gisely caminhava bem, mas com desconforto nos pés, e eu me encontrava na mesma situação que ela, mas com o joelho esquerdo totalmente comprometido. Não tardou muito e visualizamos os Molhes do Chuí.

Os últimos 2 quilômetros foram estranhos, não sentíamos vontade de comemorar, somente sentíamos um grande alívio se aproximando. A travessia da maior praia do mundo fora extrema do começo ao fim, testou nossos corpos, nossas mentes, nossos equipamentos e nossos suprimentos. Tudo.

Tocamos juntos o bloco de pedras do Molhes do Chuí. Comemoramos de maneira tímida e nos abraçamos aliviados. Sorrimos. Não sabíamos ao certo o que estávamos vivendo, na realidade não tínhamos ideia do que havíamos feito. Naquele instante nós acabávamos de atravessar a pé a maior praia do mundo. A única certeza é que estávamos diferentes, não éramos mais os mesmos, não pertencíamos mais àquelas pessoas que haviam iniciado o trekking do Cassino. Definitivamente nos tornamos outras pessoas, com a convicção de que havíamos completado o trekking mais difícil de nossas vidas.

 



Rafael Kosoniscs tem 32 anos, é paulista, publicitário, guia de turismo, blogueiro e estudante de jornalismo. É viciado em viagens de mochilão — seja em cidades ou em meio à natureza. Tem o montanhismo como paixão, sonha em dar a volta ao mundo e escrever um livro.


62 comentários em “Trekking do Cassino: a travessia na maior praia do mundo

  1. Suellem Magalhães

    Incrível! Histórias de superação sempre me deixarão com vontade de continuar vivendo. Tenho dó daqueles que acham que vivem, que enxergam as horas, os dias e os anos passando frente as suas vistas e no final de cada um não somam nem um único desafio superado! Parabéns aos três pelo equilíbrio, ajustar condição física e psicológica não é tarefa fácil.

    Desejo, portanto, mais desafios… E consequentemente, mais superações! 😉

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Concordo, Sú! Acho que o maior desafio não é fazer uma caminhada dessas, nem se aventurar mundo afora. A dificuldade maior é sair da zona de conforto, de tirar a bunda do sofá, sair da rotina… O que seria da vida sem esses momentos incríveis, não é? Desejo para todos nós mais momentos de aventura, principalmente em meio à natureza… Mais vida!!!

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  2. Rafael Leick

    Rafa, parabéns pela conquista. Já sabia meio por cima de como tinha rolado, mas muito legal ler teu relato e descobrir os detalhes dessa travessia.
    Você sabe o quanto te admiro e, também a Gi e o Junior, claro.
    Projeto sensacional, execução sensacional, relato sensacional!
    Como sempre, mandando muito bem. Tomara que um dia meu corpo me permita um desafio assim a ser superado com sucesso.
    Abraço, aventureiro!

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  3. Felipe

    Parabéns, muito legal mesmo o relato e os vídeos, foram heróis nessa. Um dia quero chegar a esse nível e fazer lindas travessias.
    Parabéns mais uma vez e obrigado pela motivação.

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  4. Juca

    Que inspiração!! É isso mesmo, to firmando cada vez mais na cabeça a vontade de vencer esse desafio também. Ótimo relato.

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  5. Isa Vichi

    “É uma travessia de dor”

    Rafa do céu! Que experiencia sensacional! Parabéns demais pra vc, Gisely e Carlos Jr.
    Taí uma coisa que nunca poderei fazer, porque por problemas de coluna, não posso carregar tanto peso assim… mas acho que não teria psicológico para caminhar horas e horas sem nenhum referencial!

    O Teaser ficou lindo e no minuto 1:20 senti todo o peso da sua mochila! E os cachorrinhos?! rsrs
    E vídeo, nem precisava dizer que você estava cansado rsrs tadinho rsr 🙂

    E lança logo esse e-book porque já quero ler! Bjão da Isa pra equipe toda!
    Isa – LidoLendo.

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Isa, você pode fazer esse trekking com apoio. Há empresas que fazem esse tour e dessa maneira você não levaria uma mochila tão pesada. O que acha?
      É uma experiência muito legal mesmo, dá pra pensar bastante na vida e também dá pra testar o limite do corpo, do psicológico, de tudo. É um trekking muito intenso e o término dele causa uma sensação fantástica. Juro que vou terminar o ebook. Te aviso! Um beijo!!

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  6. Pedro

    “Naquele instante nós acabávamos de atravessar, a pé, a maior praia do mundo. Sem apoio, sem ninguém.”
    Como assim?? Sem apoio e sem ninguém?? Pelo relato vcs tiveram ajuda no farol e do cara que morava na região.

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Pedro! Obrigado pela visita no blog.
      No começo do relato informei que fazer o trekking no Cassino, sem apoio, significava ter que carregar a própria mochila, barraca, suprimeitos. As empresas que organizam expedições dão opção para o trekker apenas levar uma mochila de ataque. O sem apoio que disse foi nesse sentido. Isso aparece de maneira claro no relato. Sim, evidentemente tivemos uma bela ajuda da Marinha e foi uma experiência bem legal. Espero que você possa um dia fazer esse trekking, e se precisar de algumas dicas, conte comigo.
      Um braço e volte sempre para acompanhar as expedições.

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  7. Luiz Carlos

    Fiquei sabendo há algumas semanas da expedição de vcs através do site amontanhista.com.br. Hoje, li o relato do início ao fim e conforme a leitura evoluia, fui recordando e revivendo os momentos de nossa expedição ao Cassino em 2009. Fizemos os 235km porém de bicicletas. Também estávamos em três e sofremos fadigas e desafios semelhantes aos de vocês. Mas uma coisa é certa. Valeu cada metro percorrido. A cada acampamento, a satisfação de estar em um lugar onde poucos estiveram. Voltei em 2011 dessa vez de moto, mas antes de chegar ao Taim, tive que retornar devido a uma forte tempestade sul com mar revolto e com a moto (na época zero km) dando problemas.
    Uma coisa é certa: o melhor pôr-do-sol da minha vida, foi no terceiro dia de nossa expedição. Os melhores nascer-do-sol ocorreram no meio do “nada” lá no cassino. Das quase 700 fotos registradas, lembro-me de cada momento.
    Ainda desejo voltar lá. Quem sabe dessa vez na “sola”.
    Parabéns pelo sucesso da expedição e parabéns pelo relato. Pena que não soube antes dos seus preparativos pois temos um vasto material que colhemos no ano que antecedeu a nossa expedição incluindo os tracks de GPS que registramos.
    Abraços

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Luiz Carlos. Que bacana ler isso. O Cassino é mesmo incrível e reserva muitas surpresas boas. Com certeza será uma travessia que lembrarei para o resto da vida. Fazer de bike também deve ser bastante interessante, mas se puder, faça caminhando.
      Um grande abraço e obrigado por dividir suas experiências também.

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  8. felipe

    Heyy, belo relato, senhor ricardo, vulgo pastor, falou bem de vcs galera… Parabéns, estou organizando minha travessia para o mes de julho de 2016, conheço bem a regiao, me identifiquei bem com o que falou quando sentia o coração bater nas pontas dos dedos, ja que fiz uma caminhada de tiro curto, porém sem suprimentos da casa do ricardo ate o farol. Parabéns denovo

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  9. ALEXANDRE CORREA LEITE DE SOUZA

    RAFA, TUDO BEM?

    É SENSACIONAL, NOS PROPORCIONAR ATRAVÉS DESTES RELATOS E IMAGENS A EXPERIÊNCIA VIVIDA POR VOCÊS. TENHO MUITA VONTADE DE FAZER ESTA JORNADA, PORÉM SEI O QUANTO NECESSITO ME PREPARAR PARA ESTE ESPETÁCULO. O MEU OBJETIVO É FAZE-LA NO PRÓXIMO ANO, SEGUNDO SEMESTRE.
    VOCÊ ME INDICARIA COMO TREINO, CAMINHADAS NA PRAIA DO LITORAL SUL DE SAMPA?
    PARABÉNS A VOCÊS PELA INICIATIVA FANTÁSTICA!!!!
    SÃO ESTAS AÇÕES QUE NOS FAZEM BUSCAR ALGO NOVO E DESAFIADOR!!!
    GRANDE ABRAÇO,
    ALEXANDRE.

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Fala, Alexandre. Beleza? Quando puder faça essa travessia. Tenho certeza que mudará a sua vida, da mesma maneira que mudou a minha. É uma expedição que qualquer pessoa pode fazer, não exite privilégio, só precisa ter a audácia de ir e fazer, apenas isso. Bora fazer! Um braço!

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  10. Paulo Bernardes

    Cara sensacional essa trip, coragem para encarar esse desafio,determinação para concluir e a superação diária do cansaço físico e mental Parabéns ótimo relato e sucesso nas próximas jornadas.

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  11. Marcelo

    Sensacional! Parabéns! Pretendo fazer final do ano. Seria possível me passar o contato da marinha para que eu possa também ficar no Albardão? 🙂
    E a água dos arroios eram boas? Tem algo que não levou/faltou e que levaria se fosse lá novamente?
    Desde já agradeço. Abraços.

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Marcelo. Leve clorin para utilizar na água dos arroios. Sobre o tel, segue: Rádio farol de Rio Grande (53) 8102.0842 | Farol do Albardão (53) 3503.3179 | Rádio Farol Chuí (53) 3264.1124. Abraços!

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  12. Érica

    Farei esta travessia daqui a duas semanas, com apoio de equipe.
    Gostaria de saber do preparo físico prévio de vcs. Caminho 10 km com relativa tranquilidade(treino a 2 passos/ min, sem corrida mas sem mochila, em quadra poliesportiva). Pilates em nível avançado para fortalecimento de quadril, joelhos e tornozelos.
    Estou treinando desde dezembro.
    Comprei os bastões, meias anti bolhas, tênis, botas de trekking.
    Quero muito fazer todo o trajeto SEM voltar com lesões, tendo o maior prazer possivel.

    Mais alguma dica????

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Érica. Pelo jeito você está treinando certo. A melhor maneira para se preparar para um trekking desse nível, é caminhar bastante. Se possível, caminhe também com uma mochila nas costas. Não sei como é ir com apoio, mas acho que isso vai facilitar e te ajudar bastante com a questão do peso, que consequentemente vai fazer sua trip ser mais agradável e menos sofrida. Alongue bastante antes de começar o trekking, leve meias reservas, mantenha os pés secos (isso é muito importante). Te desejo ótima viagem. Um abraço.

      Reply
  13. Eduardo

    Olá…poderiam me ajudar com informação sobre botas? Estou procurando uma boa bota que seja impermeável e respirável. Poderiam me indicar uma marca e modelo que aguente o tranco? Rsrs….

    Obrigado.

    Abraços!

    Reply
  14. Giovani Blumenau SC

    Blz Rafael

    Sou engenheiro eletricista e Moro em Blumenau SC mas sou de Rio Grande RS, primeiro parabéns pela viagem, já percorri essa praia mais de uma vez de moto e já fiz uns 80 km a pé!
    Duas dúvidas, no fim do relato você escreveu: “Tocamos juntos o bloco de pedras dos molhes do Cassino” seriam molhes da barra do Rio Grande ou molhes no arroio Chuí?
    Outra é que inúmeras vezes fiz longas caminhadas sempre com os pés descalços, ou as vezes com sandálias na beira da praia, eventualmente lavando os pés, como aprendi com os pescadores, pois a areia é pouquíssimo abrasiva e a salmoura do mar já age como cicatrizante, por isso estranhei o uso de botas, que me parecem como uma “tortura” eh eh eh
    No mais venham um dia a Blumenau subir o Spitzkopf ou o Morro do Cachorro. Abs

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  15. Tatiana

    Pessoal vou fazer a caminhada em novembro com um grupo sem acompanhamento… Uma das minhas maiores dúvidas é a roupa mais adequada, para não desidratar, poderiam me passar umas dicas?

    Reply
  16. Oldy

    Olá Rafael ,
    Parabéns pela travessia e pelo relato, que ficou muito informativo.
    Uma pergunta essencial para planos futuros. O que você pode me dizer sobre a direção dos ventos nesta travessia. Vocês diria que teve mais dias de vento a favor ou contra durante as caminhadas?
    Abraço,
    Oldy

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Oldy, o vento oscila muito. Só torça para não ter vento sudoeste, porque se houver isto você terá que caminhar em meio às dunas, pois a maré ficará incrivelmente alta. Esse é o único vento que você não pode pegar. Um abraço! Estou às ordens.

      Reply
  17. Cristiano Closs

    Como vcs ficaram sabendo do Sr. Ricardo??? Tiveram algum contato com ele??? Marcaram algo??? Foi no susto que ele achou vcs??? Vcs avisaram q iam??? como foi essa parte???

    Já pensei em ir no farol de Albardão….. mas do jeito que vcs fizeram estão de parabéns….foram de uma ponta a outra…me deixou motivado a ir….

    Conta esse detalhe…pode ser por email mesmo…..

    Fora intempéries que tiveram com o clima e físicos …. algum outro??? tipo bichos??? ou até mesmo de pessoas????

    Abraços…e excelente blog

    Reply
  18. Braz Antonio da Silva

    Meu amigo Raphael:

    Sinceramente fazer esses passeios é tudo de bom. Li o seu relato completo e achei muito bem escrito. Você realmente caprichou na digitação. caprichou nas informações. Eu sou de Foz do Iguaçu, Pr, sou uma pessoa apaixonada por esse tipo de aventura e, por incrível que pareça, acho que sei tão pouco sobre os lugares mais lindos de nosso país. Eu tenho a humildade de te dizer que eu nunca havia visto falar em Travessia do Chuí. Achei muito boa as inforamaões que você postou e, já em 2017, estarei me preparando para essa aventura da Travessia do Chuí. Agora em Novembro vou fazer o Trem (EFC) São Luis, Ma, a Paraopebas, Pa. E nesta mesma viajem vou fazer o monte Roraima. Muito obrigado.

    Reply
  19. Edo Gilmar N costa

    Para fins de esclarecimento o Cassino possui aproximadamente 68 km costa litoranea, o restante sao das praias do Hermenegildo(que relatada como cidadezinha) e Barra do Chui, ambas pertencentes ao municipio de Santa Vitoria do Palmar. Quanto a maoir praiado mundo o correto é: A extensao continua de costa litoranea entre Cassino e Barra do Chui.

    Reply
  20. Edo Gilmar N costa

    Porque praia do Cassino, quem sabe praia do hermenegildo que é mais extensa. Salientamos que estamos juntando documentaçao para alteraçao deste erro grotesco do guinness,

    Reply

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