Conselho de uma jovem mochileira: viaje sozinha!

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Quando eu era criança tinha medo de ir no quintal de casa sozinha. Pois é. Pouca gente sabe disso, mas meus familiares não me deixariam mentir.

Meu avô tinha muitas plantas em casa numa espécie de jardim e, na minha imaginação que sempre foi fértil, jurava que estava no meio da floresta da bruxa má! Meu primo mais velho me pegava nos braços e me largava lá perto das plantas só para ter o prazer de me ver voltando aos prantos para o colo da minha avó por estar “sozinha na floresta”.

Também tinha vergonha de pedir as coisas nos restaurantes, minha mãe sempre me fazia ir até lá e perguntar quanto custava o refrigerante, eu só queria sumir. Ah, também tinha um medo gigantesco de subir no trepa-trepa do parquinho, porque eu parecia muito pequena e ele grande demais. Porém, sobre tudo e mais forte que tudo, tinha medo de ficar sozinha.

Meus piores pesadelos na infância eram sobre um mundo sem ninguém, apenas comigo, onde vagava pelas ruas desesperada procurando qualquer pessoa, mas me encontrava na esquina e nos espelhos dos prédios. Só eu.

O tempo passou e quis fazer de mim uma mulher de coragem. Li assiduamente sobre grandes aventuras na adolescência, sonhando com o dia que as minhas sairiam do papel e se tornariam reais. Sempre quis viajar, ver o mundo, entender como ele funciona.

Mas vim de família humilde, parece fácil pegar uma mochila e sair por aí, porém quando se tem pouca grana há muito o que se pensar. E além do mais, o que a menina que tinha medo do quintal de casa faria lá fora?

E eu pensei, pensei e pensei. E fui. Porque é difícil, mas não é impossível.

Então aqui vai meu conselho, de uma jovem mochileira para todas as jovens mochileiras ou futuras mochileiras: viajem! E assim que der, viajem sozinhas.

Parece clichê, mas você vai aprender muito viajando sozinha. O mundo é mais cruel com as mulheres e vai te dar medo, eu tive também. O primeiro empecilho provavelmente virá de dentro de casa: “mas menina viajar sozinha é perigoso”; “o que vão pensar de uma moça sozinha por aí?” “por que você não arruma um namorado para viajar com você?”, eu ouvi essas e muitas outras coisas.

Não desista aí! Porque enquanto estiver programando a sua viagem, com certeza uma voz baixinha dentro de você também vai falar: “mas será que eles não têm razão?” “acho melhor ficar em casa mesmo, vai que acontece alguma coisa”. Essa voz minhas queridas, era a mesma voz que me fazia ter medo de subir no trepa-trepa ou vergonha de fazer pedidos em restaurantes.

A primeira pessoa que vai tentar te boicotar é você mesma. Afinal de contas, criaram um modelo de sociedade para nós e quando saímos um pouco da reta nosso subconsciente grita e nos manda voltar. Amiga, não volta!

Viajar sozinha vai te fazer ter mais confiança e entender quando essa voz for apenas o seu medo. Afinal de contas, sozinha em um lugar desconhecido, você aprenderá muito mais sobre você mesma e vai ter tempo de pensar com calma sobre quem é e quem quer se tornar.

Algumas vezes vai ser solitário não ter alguém com quem dividir a conta do jantar. Mas te garanto que ao ver o por do sol no lugar que você está porque quis estar, vai sentir um orgulho tremendo de si mesma e compreender como viver vale a pena. E te digo que viajando sozinha, companhia é o que não vai faltar: sem um grupo de amigos você ficará bem mais aberta a conhecer novas pessoas e viver novas experiências.

Vai aprender a delícia e o medo que é ser totalmente responsável por você. E deve amadurecer também, viu? Porque para lidar com toda essa liberdade há de se ter sabedoria, para não se perder, não só nas ruas desconhecidas, mas de todas as outras formas que podemos nos perder também.

Além disso, curtindo a sua própria companhia, deverá aprender o quão incrível você é e como tem a força e a coragem para conquistar tudo aquilo que deseja.

E quando você voltar e ver que a viagem deu certo ficará mais segura para tomar decisões, porque se você é jovem, como eu, elas vão se tornar cada vez mais sérias e às vezes vai dar a impressão de não ser capaz de acertar, mas você sabe que consegue, já acertou antes.

Viajar sozinha me fez ficar mais perto de mim mesma. Acho que só depois disso foi que finalmente superei o terror dos pesadelos da infância, porque percebi que a minha companhia também pode ser divertida. Estar sozinha é diferente de se sentir sozinha. Eu nunca me senti sozinha viajando desacompanhada, mas o contrário já aconteceu em viagens com mais pessoas.

Então mesmo soando repetitiva, lá vai novamente meu incentivo: VIAJE! Se programe, faça as contas e pense com responsabilidade. Mas viaje sozinha mana, além de cheia de histórias, você vai voltar maior por dentro e bem mais confiante.

Não fica esperando o melhor momento, aproveita as oportunidades, porque quanto mais velhas ficamos, maiores são nossas responsabilidades e além do mais, nunca sabemos o que vai acontecer amanhã.

E se você desembarcar só com uma mochila nas costas em uma rodoviária escura e o medo bater, lembra que você sempre pode voltar para casa, que existem pessoas te esperando na sua zona de conforto, ela ainda estará lá, mas mentaliza que já está na hora de conhecer o mundo e a si mesma. Vai sim. Só vai. Vai só. Se joga.

Depois me conta tudo, ok?

 

Foto: shutterstock.com



Ana Beatriz, ou Bia, tem 20 anos e mora no centro de São Paulo. É uma jornalista em formação, mas principalmente de coração. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.


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