Comecei a viajar de mochila nas costas antes dos 20 anos. Hoje, com 41, percebo que a mochila mudou. E não estou falando do modelo, da marca ou dos litros. Estou falando do que cabe dentro dela, e do que eu finalmente aprendi a deixar de fora.
Aos vinte, eu enchia a mochila de tudo. Levava roupa demais, equipamento demais, expectativa demais. Tinha medo de não ter, então carregava o excesso como quem carrega seguro contra o imprevisto. Achava que estar preparado era estar abastecido. Hoje sei que estar preparado, na verdade, é estar leve.
Aos vinte, eu queria checar destinos como quem risca uma lista. Era preciso ver tudo, fotografar tudo, dormir pouco para aproveitar mais. Cada cidade era um troféu. Cada carimbo no passaporte, uma medalha. O mochileiro jovem viaja com pressa, e a pressa, descobri, é uma forma de não estar em lugar nenhum.
Aos quarenta, eu sento numa praça e fico. Posso passar uma tarde inteira numa cafeteria de um bairro que não está em guia nenhum, conversando com o dono, observando as pessoas passarem. Não me sinto culpado por não ter ido naquele ponto turístico famoso. A viagem, hoje, é o que acontece enquanto eu não estou indo a lugar nenhum.
A mochila do mochileiro que envelhece também ficou mais cara, e tudo bem assumir isso. Aos vinte, eu dormia em qualquer canto, comia o que aparecia, andava quilômetros para economizar uns trocados. Hoje pago um pouco mais por uma cama decente, por um café da manhã sem pressa, por um Uber quando o corpo pede. Não é luxo, é conhecimento. Aprendi quais economias valem a pena e quais cobram caro depois.
O corpo também mudou. Aquela trilha que eu fazia em cinco horas, hoje faço em sete. As subidas pesam mais. As descidas castigam o joelho. Mas o curioso é que eu chego ao mesmo cume, e a vista, juro, parece ainda mais bonita. Talvez porque agora eu saiba o preço dela.
E há o que ficou para trás, que é o mais importante.
Pelo caminho, ficaram pessoas. Algumas porque a vida seguiu rumos diferentes, outras porque era assim que tinha que ser. Mochileiros que dividiram beliche comigo numa noite e nunca mais vi. Amigos de viagem que viraram família por uma semana e depois se perderam num grupo de WhatsApp esquecido. Companheiros de estrada que hoje só existem em fotografias antigas. E também aqueles que eu mesmo precisei deixar ir, porque seguir adiante exigia. Por muito tempo, doeu pensar nisso. Hoje entendo que cada uma dessas pessoas foi exatamente o que precisava ser, pelo tempo que precisava durar. A estrada apresenta. A estrada também despede. Faz parte.
Pelo caminho, ficou também aquela versão minha que buscava algo sem saber o quê. Aos vinte, eu viajava com uma inquietação que não sabia nomear. Era como uma fome de alma. Eu achava que estava procurando lugares, paisagens, experiências, mas estava procurando outra coisa, e essa outra coisa não tinha nome ainda. Eu corria o mundo querendo encontrar fora o que só poderia encontrar dentro. Demorei para entender. Talvez tenha sido preciso caminhar todos esses quilômetros, dormir em todas aquelas camas estranhas, atravessar todos aquelas montanhas, justamente para chegar à conclusão de que a viagem mais longa é a que se faz parado.
Foi nesse ponto que tudo começou a se conectar. A trilha virou oração. O silêncio do amanhecer numa montanha virou meditação. A peregrinação virou caminho. Cada passo, depois de certa idade, deixa de ser deslocamento e passa a ser presença. Não viajo mais para chegar a algum lugar. Viajo para estar inteiro no lugar onde piso. E percebi que a espiritualidade não estava em nenhum templo distante, em nenhum destino sagrado, em nenhuma cultura mística que eu fui buscar lá longe. Estava no jeito de olhar a vida. Estava no agora.
Aos vinte, eu queria estar longe de quase tudo. Do trabalho, da rotina, da cidade, de mim mesmo. A estrada, algumas vezes, foi escape. Hoje a estrada é encontro. Comigo, com o outro, com algo maior que tento entender e nem sempre consigo nomear.
Deixei o medo de não viajar tanto quanto antes. Por muito tempo, achei que perderia a identidade de mochileiro se ficasse parado. Hoje sei que essa identidade não está nos quilômetros, está no jeito de olhar. O mochileiro não é quem está sempre indo. É quem nunca parou de prestar atenção.
E, sinceramente, há viagens novas que eu antes não enxergava. Uma manhã com meu café do lado da janela. Uma caminhada num bairro da minha própria cidade que eu nunca tinha pisado. Uma conversa longa com alguém querido. A vida virou um mochilão diário, com partidas pequenas e chegadas constantes.
Não sei se sou um mochileiro melhor hoje do que era aos vinte. Sei que sou um mochileiro mais inteiro. Carrego menos coisa, mas levo mais comigo. Caminho mais devagar, mas chego mais fundo. E quando olho para o moleque que comecei a ser nessa estrada, há mais de duas décadas, sinto gratidão. Ele foi corajoso por mim. Eu, agora, tento ser presente por ele.
A mochila envelhece. O mochileiro envelhece. Mas o desejo de caminhar, agora por dentro e por fora ao mesmo tempo, esse não cria ruga.


















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