Caminho de Santiago de Compostela

Botafumeiro: o gigante de prata que perfuma mil anos de peregrinação

Quando entrei na Catedral de Santiago de Compostela, depois de vinte e poucos dias caminhando, o que me esperava era um andaime. Lonas brancas, tapumes, o cheiro de tinta misturado ao das velas. A Catedral estava em obras. O Botafumeiro não voaria naquele dia, nem no seguinte, nem na semana inteira em que estive ali. Confesso que demorei a engolir aquilo. A gente caminha oitocentos quilômetros imaginando uma cena – o incensário gigantesco cruzando a nave, a fumaça subindo, o coro entoando o hino ao apóstolo – e quando chega, encontra plástico esticado entre colunas medievais e um aviso educado em três idiomas pedindo desculpas pelo transtorno.

Sentei-me num banco de madeira, num canto que não estava interditado, e fiquei olhando para o vazio onde, em outros dias, oito homens vestidos de túnicas vermelhas teriam puxado uma corda grossa pendurada no alto da cúpula. Pensei que aquele silêncio talvez fosse mais honesto do que o espetáculo. Que os peregrinos medievais que dormiam ali há mil anos também não tinham visto Botafumeiro nenhum em muitas das suas chegadas – ele só aparecia em datas específicas, em ocasiões solenes. A maioria deles nunca viu. E mesmo assim chegavam.

Foi ali, no banco daquela catedral em reforma, que comecei a entender melhor a história daquele objeto que eu não veria balançar. Talvez por isso ela tenha ficado mais nítida. Quando a gente não tem o espetáculo, sobra o pensamento.


Recuemos uns mil anos. O Camino vivia o seu apogeu medieval. A descoberta do túmulo do apóstolo Tiago no início do século IX havia transformado uma aldeia perdida da Galícia num dos três grandes destinos de peregrinação da cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém. Vinham aos milhares: franceses, italianos, alemães, ingleses, islandeses. Atravessavam montanhas, rios, fronteiras de reinos que não existem mais. Caminhavam por semanas, por meses. Chegavam à Catedral exaustos, encharcados de chuva, cobertos da poeira das estradas, com as roupas grudadas ao corpo pelo suor de uma jornada que para alguns durava o tempo de uma estação inteira.

E não tinham para onde ir. Os albergues mal davam conta da multidão. Então faziam aquilo que parecia mais natural: dormiam dentro da própria Catedral. Esticavam suas mantas no chão de pedra, encostavam-se às colunas, esperavam pela missa do amanhecer. Os registros históricos mostram que essa prática persistiu até pelo menos 1529.

Imagine a cena. Imagine o ar dentro daquele templo fechado, com centenas de corpos que não conheciam banho havia semanas, com tecidos úmidos fermentando ao calor das velas, com pés que tinham percorrido oitocentos quilômetros sem trocar de meia. Imagine o cheiro. Os cronistas medievais não eram modestos: descreviam o odor como insuportável.

Foi então que alguém teve a ideia. Um incensário maior. Um Turibulum Magnum, como o nomeia o Códice Calixtino, o primeiro guia da peregrinação, escrito no século XII. Algo grande o bastante para perfumar a nave inteira de uma só vez.


A palavra Botafumeiro vem do galego e significa, sem rodeios, “o que lança fumaça”. Foi popularizada apenas no século XIX, mas o objeto e seu uso são muito mais antigos. Os primeiros documentos que o mencionam datam de 1300. O incensário medieval provavelmente era de prata, talvez de ouro – não sobreviveu. O que se vê balançar pela Catedral nos dias normais é uma peça de 1851, forjada em latão prateado pelo ourives compostelano José Losada, e mede pouco mais de um metro e meio. Pesa cerca de 53 quilos sem o carvão. Quando carregado de incenso, pode chegar aos cem. Atinge 68 quilômetros por hora num arco de 65 metros entre as duas extremidades do transepto.

Eu sabia desses números antes mesmo de chegar. Tinha lido, tinha visto vídeos, tinha imaginado. É curioso como a gente cria expectativas sobre coisas que nunca presenciou e depois sente como perda algo que, em rigor, não nos pertencia.

A função sempre foi dupla, e os historiadores costumam discutir qual delas vinha primeiro. A litúrgica era óbvia: o incenso é, em quase todas as religiões antigas, um veículo da prece, uma matéria que se transforma em ar e sobe, levando consigo o que se quer dizer ao que está acima. “Suba minha oração diante de ti como incenso”, diz o Salmo 141. A prática vem do Egito antigo, atravessou o judaísmo, foi herdada pelo cristianismo primitivo.

A função prática, no entanto, era ainda mais imediata. Acreditava-se também, na época, que a fumaça do incenso tinha propriedades profiláticas contra a peste e as epidemias – o que não era um detalhe menor numa Europa medieval em que as doenças entravam pelos portos e percorriam as estradas junto com os peregrinos.

Há historiadores que torcem o nariz para quem reduz o Botafumeiro a um mero ambientador. Argumentam que essa interpretação foi exagerada por jornalistas românticos do século XIX, especialmente um tal Antonio Neira de Mosquera, que em 1852 escreveu sobre o “vota-fumeiro” no Semanário Pintoresco Español. Dizem que existiam outros braseiros pela Catedral cumprindo o papel de purificar o ar, e que a função simbólica sempre foi mais importante. Talvez tenham razão. Mas a verdade, eu desconfio, é que sagrado e profano andavam de mãos dadas na Idade Média. A oração subia ao céu junto com o incenso, e o incenso fazia o seu trabalho aqui embaixo, entre os corpos cansados, fazendo da catedral um lugar suportável para esperar a aurora.


O sistema de polias que faz o Botafumeiro voar foi instalado no século XVI por Juan Bautista Celma. É uma engenhosa máquina medieval que continua funcionando com os mesmos princípios até hoje. Os oito homens que o operam são chamados tiraboleiros – palavra também derivada do latim turifer, “portador de incenso”. Vestem túnicas vermelhas e treinam para sincronizar o movimento das cordas com a precisão de quem sabe que o erro pode custar caro.

E custou, algumas vezes. Em 1499, durante a passagem de Catarina de Aragão pela Catedral – ela ia a caminho da Inglaterra para casar com o herdeiro do trono – o Botafumeiro se desprendeu, cruzou a nave em alta velocidade e voou pela janela da Porta das Pratarias. Não há registro de feridos. Em 1622, caiu aos pés dos próprios tiraboleiros. Em 1937, em plena Guerra Civil Espanhola, as cordas falharam outra vez e os carvões em brasa se espalharam pelo chão.

Acidentes históricos à parte, o ritual continua – nos dias em que a Catedral não está coberta de andaimes. O Botafumeiro não é usado em todas as missas, apenas em datas litúrgicas específicas, como o dia 25 de julho, festa do apóstolo, ou quando algum grupo de peregrinos contrata o serviço como oferenda. É um espetáculo que mistura fé, engenharia, tradição e turismo, e cuja maior ameaça atual, segundo a própria Fundação da Catedral, é exatamente essa última – ser reduzido a atração, perder o significado.


Conheci uma australiana num albergue dias antes de chegar a Compostela. Ela já tinha feito o Camino duas vezes e me disse que, na primeira, viu o Botafumeiro voar. Na segunda, não. “E sabe o que aconteceu?”, perguntou, mexendo no chá de saquinho que carregava desde Sydney. “Da segunda vez eu chorei mais. Talvez porque imaginar é diferente de ver. Imaginar exige que a gente preencha o espaço com alguma coisa que vem de dentro.”

Pensei nela quando saí da Catedral em obras. Caminhei até a Praça do Obradoiro, sentei-me numa das pedras gastas pelos séculos, e fiquei ali um tempo sem pensar em nada. Acho que era a primeira vez, em vinte e poucos dias, que o silêncio dentro de mim era maior que o silêncio da rua.

Não vi o Botafumeiro voar. Mas saí dali entendendo algumas coisas sobre o objeto que não vi balançar – e sobre os homens e mulheres que, há mil anos, chegavam àquela mesma praça com pés cobertos de feridas, com fome, com a cabeça cheia das mesmas perguntas que carreguei a vida inteira sem saber nomear. A maioria deles também não viu o incensário voar. E mesmo assim, alguma coisa naquele lugar os curou.

O Camino nos ensina isso o tempo todo. Que a fé caminha com pés cheios de bolhas. Que a contemplação acontece em corpos que precisam de água, de comida, de sono. Que a oração mais antiga do mundo, talvez, tenha começado num gesto humilde de alguém querendo apenas que o ar da igreja ficasse mais respirável para os irmãos que tinham vindo de longe.

Um dia eu volto a Santiago. Talvez aí o gigante de prata esteja livre dos andaimes, e eu o veja cruzar a nave, com os oito tiraboleiros puxando a corda como se puxassem todos os séculos de uma vez. Mas se isso não acontecer, tudo bem. Já sei o que ele significa. E sei também que algumas coisas a gente sente mais quando não vê.

Buen Camino.

 

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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