Caminho de Santiago de Compostela

Caminho de Santiago em 2025: mais de 530 mil peregrinos e o que esse número não conta

O Caminho de Santiago acaba de bater o recorde histórico. Em 2025, mais de meio milhão de pessoas completaram a peregrinação até a Catedral de Santiago de Compostela, segundo dados do Gabinete do Peregrino. Para ser mais exato, 530.919 peregrinos receberam a Compostela, o certificado oficial entregue a quem chega ao final da rota. É um crescimento de 6% em relação a 2024 e de 90% em relação a dez anos atrás. 

O número impressiona. E também provoca algumas perguntas.

Eu fiz o Caminho Francês em 2019. Saí de Saint-Jean-Pied-de-Port, atravessei os Pirineus, caminhei por dias pela Galícia até chegar a Santiago. Já naquela época, a rota dava sinais de transformação acelerada. Albergues lotados em alta temporada, peregrinos vindos de todos os cantos do mundo, uma economia inteira girando em torno de quem caminha. Seis anos depois, os números só confirmam o que já se via.

Os dados de 2025 em detalhe

O Caminho Francês continua sendo a rota mais procurada. Em 2025, 241.491 peregrinos partiram dele, com a maioria espanhola e o restante distribuído entre dezenas de nacionalidades. O ponto de partida mais popular continua sendo Sarria, na Galícia, que fica a pouco mais de 100 quilômetros de Santiago, justamente a distância mínima exigida para receber a Compostela.

O Caminho Português também viveu um ano histórico. Pela primeira vez, ultrapassou os 100 mil peregrinos em uma única temporada. A Rota Portuguesa da Costa, que sai do Porto, registrou 89.265 caminhantes, com forte presença de espanhóis, norte-americanos e alemães. 

Outro dado que chama atenção: os peregrinos vindos dos Estados Unidos passaram a ocupar a segunda posição em volume, atrás apenas dos espanhóis. É uma mudança considerável no perfil de quem caminha, e provavelmente reflete o fenômeno cultural que o Caminho virou nos últimos anos, alimentado por filmes, livros e redes sociais.

O que os números não contam

Quando se olha para a estatística, é fácil reduzir tudo a uma planilha. Cresceu 6%, são tantos espanhóis, tantos americanos, Sarria continua liderando. Mas o Caminho não cabe em gráfico.

O que esses 530 mil peregrinos têm em comum não está no número. Está no que cada um carregou na mochila e no que cada um deixou pelo caminho.

Eu, em 2019, fui buscar uma coisa e encontrei outra. Cheguei em Santiago diferente de quem tinha saído de Saint-Jean. Não pelas paisagens, embora elas marquem. Não pelas igrejas, embora elas impressionem. Mas pelo silêncio de horas caminhando sozinho. Pelas conversas com peregrinos que nunca mais vi e que viraram pedaços importantes da minha história. Pelos momentos em que o corpo doía tanto que era impossível pensar em qualquer outra coisa, e exatamente por isso a cabeça finalmente se aquietava.

Esse pedaço não aparece em estatística nenhuma.

O Caminho está mudando, mas continua sendo o Caminho

Há quem diga que o crescimento ameaça a essência da peregrinação. Que a rota está virando atração turística, que a alma do Caminho se perde em meio aos albergues lotados. É uma preocupação legítima, e não vou dizer que não procede em absoluto.

Mas também já vi muito peregrino chegar a Santiago em silêncio, com a mochila gasta e os olhos cheios, sem ter ideia do tamanho da estatística da qual fazia parte. O número cresce porque a busca cresce. Cada vez mais gente está cansada da pressa, do barulho, da vida em modo automático. E o Caminho, com toda a sua infraestrutura de albergues, setas amarelas e cafés em pequenas vilas, continua oferecendo algo que praticamente nenhum outro lugar do mundo oferece: dias inteiros para caminhar e pensar.

Se você está pensando em fazer, o aviso continua valendo: 2027 será Ano Santo Compostelano, o que historicamente significa um aumento ainda maior no número de peregrinos. Quem quiser fugir das maiores aglomerações pode considerar 2026, ou rotas alternativas como o Caminho Primitivo, o do Norte ou o Inglês, que mantêm volumes muito menores e paisagens igualmente bonitas.

E se você está esperando o momento certo, talvez seja hora de parar de esperar. O Caminho não vai diminuir. Ele só vai continuar sendo, ano após ano, esse fenômeno antigo e novo ao mesmo tempo, que junta meio milhão de pessoas atrás de algo que nenhum mapa explica.

Eu fiz em 2019. Voltei outro. E continuo voltando, em pensamento, todos os dias.

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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