Itália

Pompeia: a cidade que parou no tempo e a estranha sensação de já ter sentido aquilo antes

Caminho devagar pelas ruas de paralelepípedos. O sol bate forte na cabeça, daqueles sóis que não dão trégua, que obrigam a buscar sombra a cada esquina. Mas o que sinto não é exatamente calor. É reconhecimento. Como se algo em mim soubesse o que estava prestes a acontecer.

Há turistas, claro. É Pompeia. Mas, em determinados pontos, a cidade se entrega vazia, e fico sozinho num pátio, numa rua, num beco onde só se ouve o vento. Era um silêncio que eu não esperava. Um silêncio antigo.

Não estava sozinho na viagem. Estava com minha mãe, meus irmãos e minha esposa, e talvez por isso aquela visita ganhou uma camada que dificilmente eu teria sentido se estivesse só. É diferente atravessar uma cidade morta com a gente que mais ama por perto. Cada um vivendo sua própria experiência em silêncio, mas juntos no mesmo solo, no mesmo tempo, na mesma cidade que parou.

Cheguei a Pompeia depois de meses pensando nela. Não exagero. Alguns meses antes da viagem, li o livro Há Dois Mil Anos, atribuído ao espírito Emmanuel e psicografado por Chico Xavier. A obra acompanha a trajetória de Públio Lentulus, um senador romano que vive seus dilemas no início do Império, logo após a crucificação de Jesus, e cuja narrativa atravessa diferentes encarnações em séculos diferentes da história romana.

A leitura me afetou de uma forma que demorei a entender.

E foi por isso que Pompeia, que estava no roteiro como mais um ponto turístico, virou aos poucos a parte que mais me mexia. A parte que eu não sabia explicar por que me importava tanto.

 

A história factual é conhecida, mas vale recapitular. Pompeia era uma cidade próspera da região da Campânia, no sul da Itália, na Baía de Nápoles. Tinha cerca de 12.000 habitantes, ruas de paralelepípedos, comerciantes, gladiadores e crianças. Lojas, padarias, termas e teatros animavam a cidade, enquanto afrescos coloridos adornavam as casas dos mais abastados. 

Mais do que isso, Pompeia era uma cidade romana ativa exatamente na época de Cristo. Quando Jesus caminhava pelas ruas de Jerusalém, Pompeia já estava lá, vivendo seu auge comercial, recebendo mercadores de todo o Mediterrâneo, construindo seus templos, suas casas, suas fontes. Era um dos cenários ricos do Império Romano nas primeiras décadas do século I. Os mesmos anos em que, do outro lado do Mediterrâneo, nascia o cristianismo.

Pisar em Pompeia é, de certa forma, pisar em uma cidade contemporânea daquilo que se conta nos evangelhos. Não é metáfora. É história.

Em 79 d.C., uma explosão mudou tudo. O Monte Vesúvio expeliu uma nuvem de gases e pedras a 33 quilômetros de altura, ejetando rocha derretida e cinzas a 1,5 milhão de toneladas por segundo, liberando o equivalente a cem mil vezes a energia térmica das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. 

O céu virou noite ao meio-dia. As pessoas correram. As que conseguiram, fugiram para o mar. As que ficaram, ficaram para sempre.

Estima-se que entre 20 e 30 mil pessoas morreram entre Pompeia e Herculano, atingidas pelos tremores, alvejadas pela chuva de pedra-pomes, esmagadas em suas casas pelos tetos carregados de pedras ou asfixiadas pelos gases tóxicos da nuvem de fumaça. 

 

A cidade ficou enterrada por mais de mil e seiscentos anos. Pompeia permaneceu sob seis a vinte e cinco metros de cinzas, totalizando dez bilhões de toneladas, até ser redescoberta em 1748 com a construção de um aqueduto, momento em que começaram as escavações que continuam até hoje. 

Esse é o resumo dos livros de história. Mas Pompeia não é um resumo. Pompeia é uma cidade. Uma cidade onde, ao caminhar, você sente o tempo ficar suspenso.

Desço pela Via dell’Abbondanza, uma das principais artérias da cidade antiga. As construções de tijolos e pedra resistem em pé, com seus pórticos, suas portas, seus balcões. Em algumas casas, ainda estão os afrescos com pigmentos vermelhos e ocres tão vivos que parecem ter sido pintados na semana passada. Em uma padaria, vejo os fornos de pedra intactos. Numa termopólio, uma espécie de bar onde se serviam bebidas e comidas quentes, ainda estão os jarros embutidos no balcão.

Mas o que mais me prende é o chão.

O piso em pedra está bastante desgastado. Os paralelepípedos, que um dia foram cortados em ângulos retos, hoje estão lisos de tanto uso, polidos pelo passar dos séculos como se alguém tivesse esfregado cada um deles com cuidado. Em alguns trechos, dá pra ver com nitidez as marcas das bigas, dois sulcos paralelos cavados na rocha pelas rodas que passaram por ali milhares e milhares de vezes. Tantas, que a pedra cedeu.

Fico olhando aqueles sulcos por um tempo. É um detalhe pequeno, mas é dos mais comoventes da visita inteira. Porque aquilo não é arquitetura nem afresco nem monumento. Aquilo é o gasto. É a marca do cotidiano. É a prova física de que ali, naquele lugar, durante muitos anos, gente comum andou, trabalhou, se cruzou, levou mercadoria, voltou pra casa. A vida deixou seu sulco.

E é aqui que começa a sensação estranha.

 

Imagino as bigas passando pelas ruas. Vejo, com uma nitidez que me assusta, as rodas batendo nas pedras, encontrando os mesmos sulcos que estão sob meus pés agora. Os cavalos suando sob o sol. As vozes dos comerciantes anunciando seus produtos, o cheiro do pão sendo assado nas padarias, o vapor das termas, o burburinho de uma cidade que se preparava para mais um dia comum, sem saber que aquele seria o último.

Não sei dizer se aquilo era apenas a leitura recente do livro me alimentando a imaginação, ou se era outra coisa. Talvez as duas coisas estivessem conversando dentro de mim. O fato é que, por alguns instantes, eu não estava no presente. Estava num lugar onde o presente e o passado pareciam dividir o mesmo espaço.

Olho para o lado. Minha mãe está parada diante de uma porta entreaberta de uma casa antiga, observando em silêncio. Meus irmãos caminham mais à frente, conversando baixo. Minha esposa fotografa algum detalhe de uma parede. Cada um vivendo a sua Pompeia. Cada um, do seu jeito, sendo atravessado por ela.

Sigo caminhando.

Paro diante de uma das vitrines onde estão expostos os moldes em gesso das vítimas. Existem hoje cerca de 1.150 corpos encontrados em Pompeia, alguns decalcados em gesso, das pessoas e animais que faleceram com expressões de terror. 

 

Os corpos não estão ali, na verdade. O que está ali é o espaço que eles deixaram nas cinzas. Quando os arqueólogos do século XIX perceberam que havia cavidades vazias enterradas no chão, tiveram a ideia de injetar gesso. O gesso preencheu o que sobrou da forma humana após a decomposição. O resultado é o mais perto que se pode chegar de uma pessoa materializada.

Uma mãe abraçando o filho. Um homem com as mãos cobrindo o rosto. Um cachorro contorcido em uma corrente.

Fico parado ali por um tempo que não sei medir.

Há uma ideia presente no livro de Chico Xavier que me volta com força nesse momento. A noção de que carregamos conosco aquilo que vivemos, mesmo quando não nos lembramos conscientemente. De que cada cidade, cada paisagem, cada lugar onde pisamos pode acionar uma camada qualquer de algo que está mais fundo.

Não digo que vivi outras vidas em Pompeia. Não tenho como afirmar isso, e não é dessa convicção que estou falando.

O que digo é mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. Em Pompeia, eu senti algo que nunca tinha sentido em nenhum outro lugar do mundo. Uma combinação de tristeza com pertencimento. De estranheza com familiaridade. Como uma música que volta, anos depois, e a gente percebe que sabe a letra sem nunca ter tentado decorar.

A explicação racional é uma. A leitura recente, os documentários, o conhecimento prévio sobre a cidade, tudo isso constrói um repertório que pode ser acionado quando finalmente se pisa no lugar. É verdade. Faz sentido.

Mas há outra explicação possível, e ela não compete com a primeira. Apenas existe ao lado.

Há quem caminhe por Pompeia e veja apenas pedras. Há quem caminhe por Pompeia e veja gente.

Eu vi gente.

A visita continua. Atravesso o Foro, com suas colunas em pé apontando para o que sobrou do céu. Passo pela Casa do Fauno, com seu mosaico imenso e perfeito. Subo até a Vila dos Mistérios, onde os afrescos contam, em vermelho intenso, uma cerimônia de iniciação dos antigos cultos romanos. Ao fundo, sempre, o Vesúvio. Quieto. Esperando.

O vulcão tem 1.281 metros de altura e, antes da erupção do ano 79, não tinha atividade há sete séculos. Os habitantes de Pompeia viviam tranquilos, edificando a cidade pensando que o Vesúvio fosse apenas uma imponente e bela montanha.

Sair de Pompeia é difícil. Não pelo cansaço, embora a caminhada seja longa e o sol castigue. É difícil porque a cidade não te solta com facilidade. Você sai dali com algo a mais e algo a menos. A mais, porque ganhou uma camada nova de mundo. A menos, porque deixou um pedaço de você naquelas pedras.

Atravessei a saída em silêncio, com minha família caminhando por perto, cada um respeitando o silêncio do outro. Olhei para trás uma última vez. Imaginei, mais uma vez, as bigas. Os cavalos. As crianças correndo entre as pernas dos adultos. O cheiro do pão.

E pensei na frase que abre o livro que tinha lido poucos meses antes.

Há dois mil anos.

Não é apenas um título.

É uma constatação de que o tempo, para certas memórias, não é uma linha reta. É uma espiral. E em algum ponto dessa espiral, a gente reconhece alguma coisa que ainda não sabe nomear, mesmo quando a cabeça insiste em dizer que está vendo aquilo pela primeira vez.

Saí de Pompeia com a sensação de que aquela cidade não tinha morrido. Nunca tinha. Apenas estava, há dois mil anos, aguardando ser visitada por quem precisava sentir o que ela ainda tinha a dizer.

E saí com a sorte rara de ter atravessado aquele tempo suspenso ao lado das pessoas que mais amo. Como se Pompeia, no fim, tivesse me dado de presente o privilégio de viver uma travessia espiritual sem deixar de estar junto. Sem deixar de pertencer.

Pompeia (Parco Archeologico di Pompei)

A melhor época

Pompeia pode ser visitada o ano todo, mas o ideal é evitar os meses mais quentes. Em julho e agosto, o sol castiga e os termômetros costumam passar dos 35°C, o que torna a caminhada exaustiva, já que praticamente não há sombra dentro do parque. Os melhores meses são abril, maio, setembro e outubro, com clima mais ameno e céu claro. Quem prefere baixa temporada e dias mais frescos pode optar por novembro, fevereiro ou março, com a ressalva de que algumas chuvas podem aparecer.

A primeira parte da manhã, logo na abertura, é o melhor momento para entrar. Há menos gente e o sol ainda não bate forte.

Como chegar a Pompeia

A maneira mais comum e prática é a partir de Nápoles, a cerca de 25 km do parque arqueológico.

  • Trem Circumvesuviana (linha local): sai da estação Napoli Garibaldi (no nível inferior da estação Napoli Centrale), em direção a Sorrento. Desça na estação Pompei Scavi-Villa dei Misteri, que fica a poucos metros da entrada principal (Porta Marina). A viagem dura cerca de 30 a 40 minutos. O bilhete custa por volta de €3,30. Os trens passam, em média, duas a três vezes por hora. Untold Italy
  • Campania Express: trem turístico que faz o mesmo trajeto Nápoles–Sorrento com paradas apenas nos principais pontos (incluindo Pompeia e Herculano). Tem ar-condicionado, assento garantido e espaço para bagagem. Mais caro que a Circumvesuviana, mas bem mais confortável.
  • Trem Trenitalia (linha Nápoles–Salerno): desce na estação Pompei Centrale, na cidade moderna. A entrada do parque arqueológico fica a cerca de 15 minutos a pé desta estação, pelo portão Piazza Anfiteatro.
  • De carro: pela autoestrada A3, saída Pompei Ovest, leva direto à entrada do parque. Há estacionamentos pagos próximos.
  • De Roma: trem de alta velocidade (Trenitalia ou Italo) até Napoli Centrale (cerca de 1h10), e depois a Circumvesuviana até Pompei Scavi.

Ingressos e valores (2026)

  • Pompeii Express (entrada padrão): €20 para adultos. Dá acesso ao parque arqueológico principal: Foro, Anfiteatro, casas, templos e termas. Aventuras na História
  • Pompeii+ (entrada estendida): €25 para adultos. Inclui Pompeia + villas suburbanas como a Villa dos Mistérios, Villa de Diomedes e Villa Regina (em Boscoreale), com transporte gratuito (Pompeii Artebus) entre os sítios. Pompeii Sites
  • Cidadãos da União Europeia entre 18 e 25 anos: €2 com documento válido. Most Amazing Places
  • Menores de 18 anos: entrada gratuita.
  • Primeiro domingo de cada mês: entrada gratuita para todos (Domenica al Museo). É bom lembrar que nesses dias o parque fica bastante cheio. National Geographic
  • MyPompeii Card (passe anual): €45, com acesso ilimitado ao parque arqueológico e demais sítios associados durante 12 meses. Historiaemcortes

O que você precisa saber

  • O parque arqueológico tem cerca de 44 hectares abertos à visitação, com uma cidade inteira para ser explorada. Reserve no mínimo 4 horas, idealmente um dia inteiro.
  • Há três entradas oficiais: Porta Marina (a mais movimentada e mais próxima da Circumvesuviana), Piazza Esedra (mais tranquila, com acesso ao Antiquarium) e Piazza Anfiteatro (no extremo leste, ótima para começar a visita por dentro pra fora).
  • Os ingressos são pessoais e nominais. Quem comprar online deve apresentar documento de identidade na entrada. Historiaemcortes
  • A partir de 2 de março de 2026, a venda oficial online passou a ser feita exclusivamente pelo VivaTicket. Compre apenas pelo site oficial pompeiisites.org ou direto no VivaTicket para evitar revendas com preços inflados. Historiaemcortes
  • Há um limite diário de 20 mil visitantes, com horários por faixa em alta temporada (abril a outubro). Em fins de semana e feriados, o ingresso costuma esgotar com antecedência. Reserve com pelo menos uma semana de antecedência.
  • Áudio guias estão disponíveis para aluguel na entrada (cerca de €8) em diversos idiomas, incluindo português.
  • Leve sapato confortável e fechado. As ruas de paralelepípedos são desniveladas, com sulcos profundos das antigas bigas. Tênis de caminhada é o ideal.
  • Leve água (há fontes de água potável dentro do parque, mas a caminhada é longa) e protetor solar. A sombra é rara dentro das ruínas.
  • O parque está aberto todos os dias, exceto 25 de dezembro e 1º de janeiro.
  • Horários: das 9h às 19h30 (abril a outubro) e das 9h às 17h (novembro a março), com última entrada uma hora e meia antes do fechamento.
  • Vale a pena combinar a visita com Herculano (outra cidade soterrada pelo Vesúvio, menor e mais bem preservada) e/ou com a subida ao Vesúvio, que pode ser feita em meio dia.
  • Site oficial: pompeiisites.org

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

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