Caminho de Santiago de Compostela Crônica

O banco de madeira que eu nunca esqueci

Essa semana, recebi uma mensagem no grupo de amigos que fiz no Caminho de Santiago. Era uma foto simples. Um quadro pendurado na parede, em algum lugar da Malásia. Dentro dele, uma imagem nossa. Do nosso pequeno grupo que se formou ao longo da caminhada.

Fiquei olhando aquilo por alguns segundos.

Era estranho e bonito ao mesmo tempo perceber que, de alguma forma, eu estava ali. Em uma parede do outro lado do mundo. Parte da memória de alguém, assim como aquelas pessoas também se tornaram parte da minha.

E foi aí que a lembrança veio.

Sem aviso.

Era fim de tarde em um pequeno vilarejo no Caminho de Santiago. Não lembro exatamente o nome. Poderia buscar no roteiro, revisitar mapas, tentar reconstruir o trajeto. Mas, no fundo, isso nunca foi o mais importante.

O que ficou foi o cansaço.

Depois de um dia inteiro de caminhada, com a mochila pesando mais do que deveria e o corpo pedindo pausa, tudo o que eu queria era parar. Sem pensar muito, deixei a mochila cair ao lado de um banco de madeira. Simples, gasto pelo tempo, desses que parecem existir só para quem precisa deles naquele exato momento.

Sentei.

E fiquei.

O movimento ao redor continuava. Peregrinos chegando aos poucos, conversas baixas em diferentes idiomas, passos arrastados de quem também carregava o peso do dia. Era um cenário comum do Caminho, mas, por algum motivo, naquele instante, tudo parecia mais silencioso.

Viajar tem dessas coisas.

A gente entra num ritmo quase automático de seguir em frente. Próximo destino, próximo albergue, próximo carimbo no passaporte do peregrino. Existe sempre um depois esperando. Mas, às vezes, o que marca não é a chegada.

É a pausa.

Naquele banco, sem nada de extraordinário acontecendo, percebi algo que até então passava despercebido.

Eu não precisava fazer nada.

Não precisava chegar mais rápido, nem conversar com alguém, nem transformar aquele momento em uma história interessante. Não precisava cumprir etapa nenhuma.

Eu só precisava estar ali.

E isso bastava.

E foi ali que veio.

De repente, sem aviso, chorei.

Chorei pelas lembranças do meu pai. Pela saudade daquele figura que foi tão importante pra mim. Pela ausência que, mesmo com o tempo, continua encontrando formas de aparecer. Às vezes em silêncio. Às vezes no meio de um vilarejo qualquer, depois de um dia de caminhada.

Não era um choro de tristeza pura.

Era um choro de presença.

Como se, de alguma forma, ele estivesse ali comigo naquele momento, sentado naquele banco simples, dividindo aquele fim de tarde.

Fiquei por não sei quanto tempo. O sol foi descendo devagar, o céu mudando de cor, o fluxo diminuindo. Em algum momento, alguém sentou ao meu lado. Não trocamos palavra alguma. Ainda assim, não era silêncio.

Era companhia.

Quando levantei, o vilarejo continuava o mesmo. O caminho também. A jornada seguia.

Mas alguma coisa em mim tinha mudado.

Hoje, olhando aquela foto na parede do outro lado do mundo, percebo que não são todos os lugares que ficam. Muitos passam, se misturam, desaparecem com o tempo.

Mas alguns momentos encontram um jeito de permanecer.

Seja em um quadro na Malásia.

Seja dentro da gente.

E aquele banco de madeira… ficou.

Rafael Kosoniscs

Sou jornalista e publicitário, tenho 36 anos e viajo de mochila nas costas há 12 invernos. Tenho a mochilagem e o montanhismo como paixões. Vou publicar meu primeiro livro este ano – e você já está convidado(a) para o lançamento. Fique de olhos nas redes para não perder, ok? Siga: @seumochilao | @rafaelkosoniscs

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Planejamento

Inscreva-se!

Guia credenciado