Expedição Cassino: a travessia na maior praia do mundo

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Sempre tive vontade de fazer um projeto de trekking grandioso, diferente dos tradicionais circuitos que encontramos no Brasil. A dificuldade em localizar um local não conhecido pela comunidade de trekkers foi o primeiro grande desafio, ainda mais nessa era da informação, de blogs, portais e Facebook. Buscava algo incrível, diferente, intenso e extremo. E foi na busca desse lugar extraordinário que encontrei a Praia do Cassino, a maior praia do mundo, situada no extremo Sul do Brasil.

O Grupo

Fechamos a trip em um grupo reduzido. Somente três pessoas. Eu, do blog Seu Mochilão, Gisely Bohrer (A Montanhista) e Carlos Júnior. Uma equipe experiente em longas travessias. A Expedição Cassino surgiu pela necessidade de fazer algo diferente e também para apresentar aos praticantes de trekking uma nova opção, um circuito longo e intenso, sendo ainda um dos mais difíceis do país e da América do Sul.

 

O planejamento

A expedição começou no momento que iniciamos o planejamento. A falta de informação sobre o local fez com que a gente se preocupasse ainda mais com a travessia. Não sabíamos sobre as dificuldades que encontraríamos, e o principal, não tínhamos o conhecimento se havia água pelo trajeto. Não há registro na internet sobre esse trekking, tampouco tracklogs. Conseguimos orientações com duas empresas que organizam expedições na região, a Roraima Adventures e o Sol de Indiada. As duas foram muito generosas com a gente. Mas faríamos a expedição de forma independente, sem apoio, em um dos lugares mais ermos do Brasil. Esse era o nosso desafio.

Estávamos diante da maior aventura de nossas vidas, um caminho de 235 km, desconhecido e inóspito. A Expedição Cassino se confirmou em 18 de outubro de 2014, quando colocamos os pés na areia e decidimos realizar o desejo de fazer algo incrível, de atravessar, a pé, a maior praia do mundo. E assim fizemos.

 

O início — O trekking na maior praia do mundo

Partimos dos molhes da Barra do Cassino, em Rio Grande, com destino aos molhes da Barra do Chuí, fronteira com Uruguai. Desde o início, tínhamos a consciência de que encontraríamos pessoas apenas no primeiro dia de caminhada, já no segundo em diante, só teríamos a companhia um do outro.

Sentimos desde cedo o drama da travessia. Carregávamos 27 kg em cada cargueira e sofríamos com isso. Não conseguimos diminuir a carga, mesmo levando somente o essencial e utilizando-se de equipamentos ultraleves. Para piorar, nossa preocupação girava em torno da água e tínhamos que ir abastecidos. Acredite, água pesa bastante! Além disso, estávamos levando refeição semi-pronta para 8 dias. Não optamos por comida liofilizada (comida desidratada) por medo de não encontrar arroios pelo caminho.

 

1º dia – A realidade do trekking

No primeiro dia vivenciamos uma nova realidade, uma caminhada plana, fora das montanhas, mas extremamente árdua. Lidamos com a incidência de um peregrino logo nos 12 km iniciais. Ele vinha ao nosso encontro, desistindo da mesma façanha que nós. Perguntamos a ele:

— O que aconteceu?

Ele: — Não dá. Ontem andei praticamente 40 km, me esforcei ao máximo. Não estou preparado para isso, acho que é loucura demais atravessar essa praia. Estou voltando!

Desejamos sorte ao viajante solitário e partimos. Aquele depoimento, logo no primeiro dia, fez com que analisássemos ainda mais sobre o que estávamos fazendo, mas permanecíamos totalmente decididos em prosseguir e não havia nada que pudesse tirar esse objetivo de nós. Não era loucura. Não era um ato não planejado. Não era impulso. Estávamos preparados e confiantes.

No km 16 já sofríamos com dor. Era o peso excessivo da mochila. Percebemos também que a paisagem seria dividida em três partes: mar, horizonte infinito e dunas. Estávamos fadados a esse cenário até o final de nossa travessia. Mas gostávamos do que víamos e era novidade para nós, se tratando de ambiente de trekking, é claro. Nosso objetivo era fazer pelo menos 30 km no primeiro dia, mas tínhamos saído tarde e uma tempestade se formara a oeste. Tivemos que fazer um acampamento de emergência, diante de ventos fortes e céu preto. Na realidade, não fomos pegos de surpresa, estávamos contando com esse tipo de imprevisto, mas uma coisa é prever, outra é vivenciar uma tempestade. Estávamos diante disso, logo nos primeiros 19 km de trekking.

Nos dirigimos para a parte de trás das dunas para não sermos o ponto mais alto da praia. Armamos o acampamento com rapidez e não tardou a começar a tempestade. Estávamos em 2 barracas, Gisely Bohrer e Carlos Júnior em uma, e eu, em outra. A noite foi pavorosa, ouvíamos e víamos – através das barracas — raios caindo “próximos” a nós. Era difícil calcular a distância, mas estávamos convictos que permanecíamos no meio da tempestade, porque os barulhos dos trovões surgiam instantaneamente aos raios.

Em determinado momento pensamos que a nossa expedição estaria comprometida, mas levamos aquele primeiro desafio como um aviso da natureza. Estávamos na condição de coadjuvantes e aquele perrengue nos alertou sobre essa realidade. Ainda tínhamos mais de 200 km pela frente.

 

2º dia — Isolamento

Na manhã seguinte acordamos aliviados e seguimos em frente. O tempo estava cinza, mas sem ameaçar nova tempestade. Não demorou muito e encontramos um dos maiores ícones da Praia do Cassino: o naufrágio do Altair. Para chegar até o navio, tivemos que atravessar um arroio bem complicado, tiramos as botas — um dos rituais da travessia – e cruzamos com a água pela cintura. Ficamos impressionados com a embarcação, já quase totalmente corroída pelo mar. Seguimos em frente após alguns minutos.

Se no primeiro dia parávamos a cada 4 km para descansar, no segundo tivemos que reduzir para 3 km. Já sentíamos os músculos fadigados, unicamente pelo peso excessivo. Mesmo dividindo a carga devidamente pelo corpo, sofríamos muito. O peso era a nossa maior sentença.

Durante a travessia, o principal obstáculo era desviar o pensamento da dor, era realmente desconfortável e nos questionávamos várias vezes sobre o nosso condicionamento físico. Será que faltou preparo? Treinamos inadequadamente? Por que estávamos passando por tanta dificuldade? As respostas a esses questionamentos apareceram somente no final da expedição.

Antes de montar o acampamento do segundo dia, fomos presenteados com uma das maiores paisagens de nossas vidas, estávamos diante um pôr do sol magnífico. O céu já estava bem próximo de escurecer, e enxergávamos tons de vermelho, púrpura, laranja, azul e amarelo. Essa luminosidade multicolorida refletia nos arroios e no mar. Avistávamos também alguns cavalos selvagens correndo de um lado para o outro, agigantando a paisagem rara. Foi um dos momentos mais incríveis da travessia, ficamos emocionados com aquela cena e nos sentimos privilegiados por estar ali.

Chegávamos ao final do segundo dia com apenas 20 km percorridos. Estávamos lentos e de certa maneira desorganizados. Perdíamos muito tempo nos arroios, quase sempre tínhamos que tirar as botas e isso demandava muito tempo. Além disso, fazíamos paradas longas, que contribuíram fatidicamente para não completarmos os 30 km estabelecidos, meta mínima diária que havíamos combinado para a Expedição Cassino.

Eu tinha a consciência que precisaríamos ter outra postura nos dias subsequentes, porque do jeito que estava iríamos completar a travessia em 11 dias. Mas não tínhamos tempo e nem comida para isso. Já de noite, Gisely Bohrer fez as contas de quanto deveríamos andar nos próximos dias. Ficou definido que teríamos que fazer 35 km no próximo dia, caso isso não acontecesse, teríamos que voltar. Estava decretado!

 

3º dia — Tudo ou nada

Iniciamos a caminhada às 8h, cientes de nosso compromisso. Definimos que iríamos descansar a cada 2km e fazer 5 minutos de pausa. Foi assim que fizemos. Tivemos uma média de 4 km por hora e achamos o ponto de equilíbrio nesse planejamento definido. Teríamos que tirar os atrasos dos dias anteriores e destruir de andar nos próximos dias. Às 13h já havíamos andado 20 km, ficamos orgulhosos e pela primeira vez vislumbramos a possibilidade de completar a travessia.

A segunda parte do dia foi mais complicada. Eu já sentia dor na lombar e também vivia o desconforto de algumas bolhas nos pés. Durante o período da tarde o sol castigava bastante, éramos obrigados a ficar de blusa para não pegar insolação. Não havia sombra na praia, só existia o imenso abismo horizontal para atravessar. Independente das dores, sentíamos seguros e confiantes na travessia.

Orientávamo-nos por GPS, mas havia também os faróis, 4 deles ao longo dos 235 km, para seguir como referência. Somente neste terceiro dia que conseguimos alcançar o primeiro, denominado de Sarita, e o ultrapassamos já no final da tarde, fazendo o acampamos 6 km à frente dele, entre dunas. Conseguimos bater a meta estabelecida e fechamos o dia com 36 km. A Expedição Cassino iria continuar.

Tivemos uma noite tranquila, mas nossos pés estavam começando a incomodar. A mochila ainda dava trégua, se encontrava — ainda — exaustivamente pesada. Não reclamávamos de dor, já estávamos nos acostumando àquela situação. A meta do dia era alcançar o outro farol, denominado de Verga.

 

4º dia — 38 km de caminhada

Seguimos em frente e às 7h30 já estávamos caminhando. Permanecíamos com o mesmo planejamento, descansávamos a cada 2 km e parávamos por 5 minutos. Em dado momento do dia fomos surpreendidos por um carro. Tivemos o encontro com o ICM BIO. Eles ficaram admirados em encontrar alguém naquela praia deserta, conversamos um pouco sobre a nossa travessia e fomos informados que não era comum encontrar peregrinos por ali. A pedido deles tiramos uma foto, e após isso, seguimos em frente. Ficamos contentes com o encontro, já que era mais uma maneira de registrar a nossa travessia.

Durante a tarde já sentíamos cansaço excessivo. Mudamos a tática e começamos a descansar a cada 1 km. Júnior, já sentia dores nas pernas, Gisely Bohrer e eu estávamos com os pés destruídos, com a sensação de inúmeras bolhas nos pés. O fato era verdadeiro e só descobrimos no momento em que tiramos as botas na hora de dormir.

Se o cansaço era extremo, existia uma grande justificativa. Encerrávamos o dia com 38 km e havíamos ultrapassado o km 100 da expedição. Acampamos exatamente na base do farol Verga. Ao deitarmos na barraca sentíamos um cansaço incomum. Eu percebia as batidas do coração nos meus dedos. Compreendi que estava desrespeitando meu corpo e fiz um pedido ao Universo para que me permitisse continuar. Eu precisava concluir a travessia.

Nesse momento do trekking nos encontrávamos em situação perigosa, porque estávamos praticamente no centro da praia e muito distante da civilização. Tínhamos na cabeça que não poderíamos ter problemas e que teríamos que continuar andando. Não havia outra saída e estávamos ali pra isso, para atravessar a maior praia do mundo.

As paradas que fazíamos a cada 2 km não representavam necessariamente um descanso, durante a pausa sentíamos espasmos musculares e a retomada da caminhada era muito árdua. Os primeiros passos aconteciam com muita dificuldade e somente após 50 metros que conseguíamos manter um ritmo uniforme. Nunca senti uma dor parecida como aquela, na realidade, eu estava vivendo uma verdade muito diferente da montanha, em todos os aspectos. Era um trekking diferente.

 

5º dia — A noite no Farol do Albardão

O quinto dia tinha como destino o Farol do Albardão, uma base habitada e protegida pela Marinha do Brasil. Realizamos um contato prévio e conseguimos uma autorização para pernoitar por lá. Mas antes disso, teríamos que andar mais 30 km. Iniciamos a jornada às 8h45 e notamos que o cenário era mais bonito, o mar se apresentava mais azul, as areias se mostravam mais brancas. Era bonito de se ver. Notamos também um sol mais forte e tivemos a surpresa de encontrar uma baleia morta na areia, deduzimos que se tratava de uma Jubarte. Cabe dizer que durante a travessia era normal encontrar animais mortos, nos deparamos com tartarugas, arraias, tubarão, leão marinho, água viva, pinguins e até outros animais que não soubemos classificar. Eram cenas corriqueiras durante a nossa caminhada.

Não havia nada pior do que andar à espera do farol aparecer. Fora o cansaço físico, a expectativa de enxergar algo no horizonte também gerava uma angústia emocional, que refletia ainda mais em nossos corpos, já totalmente judiados pela expedição. Completaríamos nesse dia um total de 143 km.

O diálogo entre nós também era escasso, cada um cultivava um pensamento e era raro externar alguma ideia ou emoção. Sabíamos que todos estavam doando o máximo de si e ninguém exigia nada de ninguém, exceto o respeito pelo tempo de descanso nas paradas. Já havíamos recuperado grande parte do tempo perdido dos primeiros dias. Estávamos dentro do planejado e já vislumbrando os 80 km finais.

No Farol do Albardão fomos recebidos gentilmente pelo Sargento Rafael, que nos guiou até uma casinha situada ao lado do farol. O primeiro contato foi um choque, já que ele esperava encontrar 3 brutamontes, mas o que viu limitou-se a 3 peregrinos, em estado lastimável, perdidos no deserto, no meio do nada, sob um sol de mais de 30 graus. Observamos um olhar de surpresa misturado com uma impressão de pena. Quebramos o gelo perguntando sobre o lugar e recebemos muitas informações interessantes sobre a região, e também sobre o farol no qual nos encontrávamos. Ele nos deixou à vontade na casa e ressaltou que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário para nos reabilitarmos. Aproveitamos que ainda havia sol e lavamos nossas meias e algumas peças de roupas. Pulamos de alegria ao perceber que tínhamos um chuveiro. Conseguimos também organizar nossas tralhas e ajeitar as mochilas.

Nos encontrávamos em uma residência da Marinha do Brasil, no meio de um deserto e isso era empolgante pra gente. Fizemos coisas que não tivemos tempo de fazer nos dias anteriores, como por exemplo, limpar as mochilas, contabilizar as comidas, separar lixos e principalmente descansar numa cama. Aproveitamos o ambiente limpo e conseguimos tratar nossos machucados de forma correta. Estourávamos as bolhas dos pés com ar de diversão, e até competíamos para vem quem possuía mais. Dormimos em paz naquele dia.

 

6º dia — Descansar ou continuar?

Tivemos que tomar uma grande decisão logo de manhã: permanecer mais um dia em descanso, a fim de buscar uma melhor reabilitação, ou partir naquele instante? Concordamos em partir, já que não queríamos perder tempo e tampouco gastar 1 dia de comida. Era arriscado.

Antes de sair, fizemos nossos curativos, mas notamos que não havia mais esparadrapos, incrivelmente estávamos utilizando todos os medicamentos que trouxéramos para a Expedição Cassino. A única coisa que possuímos à disposição era uma fita silvertape. Fizemos nossos curativos com ela, colocando papel higiênico sobre os machucamos e fechando com a fita. E não é que engenhoca deu certo?

Não encontramos nenhum oficial da Marinha pelos arredores e deixamos um bilhete de agradecimento ao Sargento Rafael. Seguimos em frente e em algumas horas o Farol do Albardão se perdeu de vista. Eu e Gisely caminhávamos bem e sentíamos mais confortáveis com a mochila. Júnior, apresentava mais lentidão, uma vez que estava com o joelho esquerdo lesado. Mas seguimos juntos.

O destino deste dia era uma incógnita, já que tínhamos um contato com um morador que vivia isolado em meio às dunas, mas não tínhamos certeza se o encontraríamos. Independentemente do que acontecesse, o horizonte era nosso destino.

Durante esse dia, percebemos que os arroios, comuns de serem vistos no início do trekking, já não apareciam com tanta frequência, e quando avistávamos algum, estava seco. Ficamos grande parte do dia com medo de não encontrar água. Já próximo ao pôr do sol, estávamos praticamente secos e precisávamos captar água de algum lugar. Havia uma lagoa a cerca de 3 km ao oeste e cogitamos fazer um ataque até lá. Tínhamos também a opção de cavar, já que estávamos sobre um lençol de água. Durante essa conversa já havíamos caminhado cerca de 30 km, quando presenciamos um carro se aproximando da gente. Enquanto o veículo se dirigia a nós, combinamos em não revelar o nosso desespero por água. Imaginamos que seria o Ricardo, o morador da região. Acertamos, era o próprio.

O veículo parou próximo, e nós perguntamos:

— Ricardo?

Ele: — Isso. Pensei que vocês fossem chegar ontem.

— Tivemos um atraso por conta de tempestade do primeiro dia — Justificamos.

Ele: — Coloquem as mochilas atrás da caminhonete e subam.

Em menos de 500 metros avistamos a entrada da residência do sujeito. Se tivéssemos a pé, passaríamos direto, já que a casa fica escondida em meio às dunas. Ricardo nos ofereceu um excelente quarto para descanso, além disso, tivemos a oportunidade de tomar banho.

Já de noite, tivemos um belo jantar e também pudemos tomar chimarrão. Conversamos bastante e agradecemos inúmeras vezes a hospitalidade e a gentileza em abrigar 3 desconhecidos em sua residência, que parecia mais um paraíso em meio ao deserto. Depois de muito bate-papo o relógio já denunciava meia noite. Tínhamos que dormir. Fomos para o quarto e capotamos.

 

7º dia — O acampamento final

Logo de manhã iniciamos os preparativos, enchemos nossos camelbaks, organizamos as mochilas e saímos. Mais uma vez agradecemos o Ricardo pela estadia. Antes de seguirmos em frente, retrocedemos aproximadamente 300 metros, não apenas para descontar os pequenos metros de carona, mas para tirar algumas fotos na famosa bóia, que é também um dos ícones da região. Ela também sinaliza que a partir daquele trecho se forma o conchal, onde praticamente toda a areia da praia fica coberta por conchas. É incrível de se ver.

Estávamos em nosso penúltimo dia e tínhamos mais 30 km pela frente, permanecíamos determinados e caminhávamos convictos. No período da tarde ultrapassamos os 200 km e fizemos ligeira comemoração. Sentíamos pela primeira vez que o fim se aproximava. O sol já estava prestes a se extinguir quando batemos os 30 km do dia. Tínhamos a necessidade de encontrar um local de acampamento, e Gisely descobriu um ótimo lugar em meio às dunas, piso gramado e próximo de um arroio. Foi perfeito.

Havíamos andado mais de duzentos quilômetros e tínhamos nos transformado em puras máquinas de caminhar, não mais capazes de parar e pensar, pelo menos até o fim da travessia.

Nessa noite estávamos mais dispostos e pela primeira vez conseguimos desenvolver um diálogo mais tranquilo. Tivemos a ideia de sair de madrugada, não somente para eliminarmos os últimos 32 km que tínhamos pela frente, mas também para tentar chegar ao destino antes do pôr do sol.

 

8º dia — A última alvorada 

Dito e feito, acordamos às 4h30 e às 5h30 já caminhávamos. Vimos o nascer do sol e até e ficamos admirados com a luz emergindo sob as águas. Em poucas horas chegamos em Hermenegildo, um vilarejo que antecede os molhes do Chuí. Paramos na pequena cidadezinha e tomamos uma coca-cola gelada. Restavam ainda 15 km pela frente e o sentimento de conquista já estava no ar. Se antes estávamos isolados, nesse momento presenciávamos um ambiente diferente, com pessoas e alguns carros passando beira-mar.

As dores não davam tréguas e na etapa final sentíamos um cansaço forte. Gisely caminhava bem, mas com desconforto nos pés, Júnior caminhava mancando por causa do joelho e eu me encontrava na mesma situação que ele, com o joelho esquerdo totalmente comprometido. Não tardou muito e visualizamos os molhes do Chuí.

Os últimos 2 quilômetros foram estranhos, não sentíamos vontade de comemorar, somente sentíamos um grande alívio se aproximando. A travessia da maior praia do mundo fora extrema do começo ao fim, testou nossos corpos, nossas mentes, nossos equipamentos e nossos suprimentos. Tudo.

Tocamos juntos o bloco de pedras dos molhes do Cassino. Comemoramos de maneira tímida e nos abraçamos aliviados. Sorrimos. Não sabíamos ao certo o que estávamos vivendo, na realidade não tínhamos ideia do que havíamos feito. Naquele instante nós acabávamos de atravessar, a pé, a maior praia do mundo. Sem apoio, sem ninguém. A única certeza é estávamos diferentes, não éramos mais os mesmos, não pertencíamos mais àquelas três pessoas que haviam iniciado a Expedição Cassino. Definitivamente nos tornamos outras pessoas, com a convicção de que havíamos completado o trekking mais difícil de nossas vidas.

Nota: O relato completo da Expedição Cassino será lançado em 2015 em forma de ebook. O material conterá todas as dicas em como organizar o trekking na maior praia do mundo.



Rafael Kosoniscs tem 32 anos, é paulista, publicitário, guia de turismo, blogueiro e estudante de jornalismo. É viciado em viagens de mochilão — seja em cidades ou em meio à natureza. Tem o montanhismo como paixão, sonha em dar a volta ao mundo e escrever um livro.


60 comentários em “Expedição Cassino: a travessia na maior praia do mundo

  1. Suellem Magalhães

    Incrível! Histórias de superação sempre me deixarão com vontade de continuar vivendo. Tenho dó daqueles que acham que vivem, que enxergam as horas, os dias e os anos passando frente as suas vistas e no final de cada um não somam nem um único desafio superado! Parabéns aos três pelo equilíbrio, ajustar condição física e psicológica não é tarefa fácil.

    Desejo, portanto, mais desafios… E consequentemente, mais superações! 😉

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Concordo, Sú! Acho que o maior desafio não é fazer uma caminhada dessas, nem se aventurar mundo afora. A dificuldade maior é sair da zona de conforto, de tirar a bunda do sofá, sair da rotina… O que seria da vida sem esses momentos incríveis, não é? Desejo para todos nós mais momentos de aventura, principalmente em meio à natureza… Mais vida!!!

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  2. Rafael Leick

    Rafa, parabéns pela conquista. Já sabia meio por cima de como tinha rolado, mas muito legal ler teu relato e descobrir os detalhes dessa travessia.
    Você sabe o quanto te admiro e, também a Gi e o Junior, claro.
    Projeto sensacional, execução sensacional, relato sensacional!
    Como sempre, mandando muito bem. Tomara que um dia meu corpo me permita um desafio assim a ser superado com sucesso.
    Abraço, aventureiro!

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  3. Felipe

    Parabéns, muito legal mesmo o relato e os vídeos, foram heróis nessa. Um dia quero chegar a esse nível e fazer lindas travessias.
    Parabéns mais uma vez e obrigado pela motivação.

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  4. Juca

    Que inspiração!! É isso mesmo, to firmando cada vez mais na cabeça a vontade de vencer esse desafio também. Ótimo relato.

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  5. Isa Vichi

    “É uma travessia de dor”

    Rafa do céu! Que experiencia sensacional! Parabéns demais pra vc, Gisely e Carlos Jr.
    Taí uma coisa que nunca poderei fazer, porque por problemas de coluna, não posso carregar tanto peso assim… mas acho que não teria psicológico para caminhar horas e horas sem nenhum referencial!

    O Teaser ficou lindo e no minuto 1:20 senti todo o peso da sua mochila! E os cachorrinhos?! rsrs
    E vídeo, nem precisava dizer que você estava cansado rsrs tadinho rsr 🙂

    E lança logo esse e-book porque já quero ler! Bjão da Isa pra equipe toda!
    Isa – LidoLendo.

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Isa, você pode fazer esse trekking com apoio. Há empresas que fazem esse tour e dessa maneira você não levaria uma mochila tão pesada. O que acha?
      É uma experiência muito legal mesmo, dá pra pensar bastante na vida e também dá pra testar o limite do corpo, do psicológico, de tudo. É um trekking muito intenso e o término dele causa uma sensação fantástica. Juro que vou terminar o ebook. Te aviso! Um beijo!!

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  6. Pedro

    “Naquele instante nós acabávamos de atravessar, a pé, a maior praia do mundo. Sem apoio, sem ninguém.”
    Como assim?? Sem apoio e sem ninguém?? Pelo relato vcs tiveram ajuda no farol e do cara que morava na região.

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Pedro! Obrigado pela visita no blog.
      No começo do relato informei que fazer o trekking no Cassino, sem apoio, significava ter que carregar a própria mochila, barraca, suprimeitos. As empresas que organizam expedições dão opção para o trekker apenas levar uma mochila de ataque. O sem apoio que disse foi nesse sentido. Isso aparece de maneira claro no relato. Sim, evidentemente tivemos uma bela ajuda da Marinha e foi uma experiência bem legal. Espero que você possa um dia fazer esse trekking, e se precisar de algumas dicas, conte comigo.
      Um braço e volte sempre para acompanhar as expedições.

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  7. Luiz Carlos

    Fiquei sabendo há algumas semanas da expedição de vcs através do site amontanhista.com.br. Hoje, li o relato do início ao fim e conforme a leitura evoluia, fui recordando e revivendo os momentos de nossa expedição ao Cassino em 2009. Fizemos os 235km porém de bicicletas. Também estávamos em três e sofremos fadigas e desafios semelhantes aos de vocês. Mas uma coisa é certa. Valeu cada metro percorrido. A cada acampamento, a satisfação de estar em um lugar onde poucos estiveram. Voltei em 2011 dessa vez de moto, mas antes de chegar ao Taim, tive que retornar devido a uma forte tempestade sul com mar revolto e com a moto (na época zero km) dando problemas.
    Uma coisa é certa: o melhor pôr-do-sol da minha vida, foi no terceiro dia de nossa expedição. Os melhores nascer-do-sol ocorreram no meio do “nada” lá no cassino. Das quase 700 fotos registradas, lembro-me de cada momento.
    Ainda desejo voltar lá. Quem sabe dessa vez na “sola”.
    Parabéns pelo sucesso da expedição e parabéns pelo relato. Pena que não soube antes dos seus preparativos pois temos um vasto material que colhemos no ano que antecedeu a nossa expedição incluindo os tracks de GPS que registramos.
    Abraços

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Luiz Carlos. Que bacana ler isso. O Cassino é mesmo incrível e reserva muitas surpresas boas. Com certeza será uma travessia que lembrarei para o resto da vida. Fazer de bike também deve ser bastante interessante, mas se puder, faça caminhando.
      Um grande abraço e obrigado por dividir suas experiências também.

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  8. felipe

    Heyy, belo relato, senhor ricardo, vulgo pastor, falou bem de vcs galera… Parabéns, estou organizando minha travessia para o mes de julho de 2016, conheço bem a regiao, me identifiquei bem com o que falou quando sentia o coração bater nas pontas dos dedos, ja que fiz uma caminhada de tiro curto, porém sem suprimentos da casa do ricardo ate o farol. Parabéns denovo

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  9. ALEXANDRE CORREA LEITE DE SOUZA

    RAFA, TUDO BEM?

    É SENSACIONAL, NOS PROPORCIONAR ATRAVÉS DESTES RELATOS E IMAGENS A EXPERIÊNCIA VIVIDA POR VOCÊS. TENHO MUITA VONTADE DE FAZER ESTA JORNADA, PORÉM SEI O QUANTO NECESSITO ME PREPARAR PARA ESTE ESPETÁCULO. O MEU OBJETIVO É FAZE-LA NO PRÓXIMO ANO, SEGUNDO SEMESTRE.
    VOCÊ ME INDICARIA COMO TREINO, CAMINHADAS NA PRAIA DO LITORAL SUL DE SAMPA?
    PARABÉNS A VOCÊS PELA INICIATIVA FANTÁSTICA!!!!
    SÃO ESTAS AÇÕES QUE NOS FAZEM BUSCAR ALGO NOVO E DESAFIADOR!!!
    GRANDE ABRAÇO,
    ALEXANDRE.

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Fala, Alexandre. Beleza? Quando puder faça essa travessia. Tenho certeza que mudará a sua vida, da mesma maneira que mudou a minha. É uma expedição que qualquer pessoa pode fazer, não exite privilégio, só precisa ter a audácia de ir e fazer, apenas isso. Bora fazer! Um braço!

      Reply
  10. Paulo Bernardes

    Cara sensacional essa trip, coragem para encarar esse desafio,determinação para concluir e a superação diária do cansaço físico e mental Parabéns ótimo relato e sucesso nas próximas jornadas.

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  11. Marcelo

    Sensacional! Parabéns! Pretendo fazer final do ano. Seria possível me passar o contato da marinha para que eu possa também ficar no Albardão? 🙂
    E a água dos arroios eram boas? Tem algo que não levou/faltou e que levaria se fosse lá novamente?
    Desde já agradeço. Abraços.

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Marcelo. Leve clorin para utilizar na água dos arroios. Sobre o tel, segue: Rádio farol de Rio Grande (53) 8102.0842 | Farol do Albardão (53) 3503.3179 | Rádio Farol Chuí (53) 3264.1124. Abraços!

      Reply
  12. Érica

    Farei esta travessia daqui a duas semanas, com apoio de equipe.
    Gostaria de saber do preparo físico prévio de vcs. Caminho 10 km com relativa tranquilidade(treino a 2 passos/ min, sem corrida mas sem mochila, em quadra poliesportiva). Pilates em nível avançado para fortalecimento de quadril, joelhos e tornozelos.
    Estou treinando desde dezembro.
    Comprei os bastões, meias anti bolhas, tênis, botas de trekking.
    Quero muito fazer todo o trajeto SEM voltar com lesões, tendo o maior prazer possivel.

    Mais alguma dica????

    Reply
    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Olá, Érica. Pelo jeito você está treinando certo. A melhor maneira para se preparar para um trekking desse nível, é caminhar bastante. Se possível, caminhe também com uma mochila nas costas. Não sei como é ir com apoio, mas acho que isso vai facilitar e te ajudar bastante com a questão do peso, que consequentemente vai fazer sua trip ser mais agradável e menos sofrida. Alongue bastante antes de começar o trekking, leve meias reservas, mantenha os pés secos (isso é muito importante). Te desejo ótima viagem. Um abraço.

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  13. Eduardo

    Olá…poderiam me ajudar com informação sobre botas? Estou procurando uma boa bota que seja impermeável e respirável. Poderiam me indicar uma marca e modelo que aguente o tranco? Rsrs….

    Obrigado.

    Abraços!

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  14. Giovani Blumenau SC

    Blz Rafael

    Sou engenheiro eletricista e Moro em Blumenau SC mas sou de Rio Grande RS, primeiro parabéns pela viagem, já percorri essa praia mais de uma vez de moto e já fiz uns 80 km a pé!
    Duas dúvidas, no fim do relato você escreveu: “Tocamos juntos o bloco de pedras dos molhes do Cassino” seriam molhes da barra do Rio Grande ou molhes no arroio Chuí?
    Outra é que inúmeras vezes fiz longas caminhadas sempre com os pés descalços, ou as vezes com sandálias na beira da praia, eventualmente lavando os pés, como aprendi com os pescadores, pois a areia é pouquíssimo abrasiva e a salmoura do mar já age como cicatrizante, por isso estranhei o uso de botas, que me parecem como uma “tortura” eh eh eh
    No mais venham um dia a Blumenau subir o Spitzkopf ou o Morro do Cachorro. Abs

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  15. Tatiana

    Pessoal vou fazer a caminhada em novembro com um grupo sem acompanhamento… Uma das minhas maiores dúvidas é a roupa mais adequada, para não desidratar, poderiam me passar umas dicas?

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  16. Oldy

    Olá Rafael ,
    Parabéns pela travessia e pelo relato, que ficou muito informativo.
    Uma pergunta essencial para planos futuros. O que você pode me dizer sobre a direção dos ventos nesta travessia. Vocês diria que teve mais dias de vento a favor ou contra durante as caminhadas?
    Abraço,
    Oldy

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    1. Rafael Kosoniscs Post author

      Oldy, o vento oscila muito. Só torça para não ter vento sudoeste, porque se houver isto você terá que caminhar em meio às dunas, pois a maré ficará incrivelmente alta. Esse é o único vento que você não pode pegar. Um abraço! Estou às ordens.

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  17. Cristiano Closs

    Como vcs ficaram sabendo do Sr. Ricardo??? Tiveram algum contato com ele??? Marcaram algo??? Foi no susto que ele achou vcs??? Vcs avisaram q iam??? como foi essa parte???

    Já pensei em ir no farol de Albardão….. mas do jeito que vcs fizeram estão de parabéns….foram de uma ponta a outra…me deixou motivado a ir….

    Conta esse detalhe…pode ser por email mesmo…..

    Fora intempéries que tiveram com o clima e físicos …. algum outro??? tipo bichos??? ou até mesmo de pessoas????

    Abraços…e excelente blog

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  18. Braz Antonio da Silva

    Meu amigo Raphael:

    Sinceramente fazer esses passeios é tudo de bom. Li o seu relato completo e achei muito bem escrito. Você realmente caprichou na digitação. caprichou nas informações. Eu sou de Foz do Iguaçu, Pr, sou uma pessoa apaixonada por esse tipo de aventura e, por incrível que pareça, acho que sei tão pouco sobre os lugares mais lindos de nosso país. Eu tenho a humildade de te dizer que eu nunca havia visto falar em Travessia do Chuí. Achei muito boa as inforamaões que você postou e, já em 2017, estarei me preparando para essa aventura da Travessia do Chuí. Agora em Novembro vou fazer o Trem (EFC) São Luis, Ma, a Paraopebas, Pa. E nesta mesma viajem vou fazer o monte Roraima. Muito obrigado.

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  19. Edo Gilmar N costa

    Para fins de esclarecimento o Cassino possui aproximadamente 68 km costa litoranea, o restante sao das praias do Hermenegildo(que relatada como cidadezinha) e Barra do Chui, ambas pertencentes ao municipio de Santa Vitoria do Palmar. Quanto a maoir praiado mundo o correto é: A extensao continua de costa litoranea entre Cassino e Barra do Chui.

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  20. Edo Gilmar N costa

    Porque praia do Cassino, quem sabe praia do hermenegildo que é mais extensa. Salientamos que estamos juntando documentaçao para alteraçao deste erro grotesco do guinness,

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