Demorei a encontrá-lo. Por anos, ele tinha sido nome em rodapé de guia, citação respeitada em livros de montanhismo, sombra atrás de uma geração inteira de gente que pôs a mochila nas costas no Brasil sem nem saber que devia algo a ele. Era um daqueles personagens que existem mais como referência do que como pessoa. Quando você pergunta por eles, a resposta é sempre vaga.
Não vou dizer aqui o nome dele. Não preciso. Quem tiver curiosidade, basta procurar pelos pioneiros dos guias de montanhismo e excursionismo no Brasil, e o nome aparece. Em algum momento, aparece. Mas eu prefiro deixá-lo onde ele escolheu estar, que é fora do palco. Acho que isso é o mínimo de respeito que se pode oferecer a quem decidiu sair de cena.
Quando perguntavam por ele, a resposta era sempre vaga.
“Sumiu.”
“Não está mais nesse meio.”
“Acho que mudou de vida.”
E ficava assim. Como se ele tivesse simplesmente saído de um lado e não tivesse aparecido no outro. Um desaparecimento educado, sem alarde, daqueles que só se notam depois de muito tempo, quando você percebe que faz anos que ninguém fala dele.
Eu estava escrevendo meu livro. E, paralelamente, colecionando perfis de gente que me inspirava. Pessoas que tinham aberto trilha. No sentido literal e no outro também.
Procurei por meses.
Até que veio uma indicação. Alguém disse que sabia de alguém que sabia. E em algum canto da internet, num lugar improvável, lá estava ele. Vivo. Acessível. Um e-mail simples, escondido atrás de um @, sem fanfarra, sem aviso de que ali, atrás daquele endereço, morava um pedaço da história do montanhismo brasileiro.
Mandei uma mensagem.
Apresentei o projeto com cuidado. Disse que queria escrever sobre ele. Um perfil. Quem sabe uma biografia. Que sua história merecia ser contada. Que havia uma geração inteira de mochileiros e montanhistas que precisava conhecer aquele caminho.
A resposta veio sem pressa.
E foi um não.
Não um não duro, irritado, defensivo. Não um não de quem se esconde por orgulho ou por mágoa. Era um não de outra natureza. Sereno. Quase gentil. Como quem fecha uma porta sem bater, com a mão pousada no batente.
Ele me explicou, em poucas linhas, que estava em outra jornada da vida. Que aquele tempo das montanhas, das escaladas, dos guias, dos primeiros passos do excursionismo no país, aquele tempo já havia cumprido o que tinha que cumprir. Não era segredo, não era trauma, não era arrependimento. Era simplesmente outra estação.
E, no fim da mensagem, escreveu uma frase que carrego comigo até hoje.
“Na vida do homem, há outros Annapurnas”.
Fiquei muito tempo olhando para aquela linha.
Annapurna. Aquela palavra carrega peso. É um lugar onde gente morre para subir e onde gente morre tendo subido. É um dos cumes mais cobiçados, mais temidos, mais respeitados da Terra. Para quem vive de montanha, dizer Annapurna é dizer tudo. É a palavra que resume a obsessão, o limite, o sonho que se confunde com sentença.
E aquele homem, que poderia muito bem estar falando de cumes literais que talvez tenha sonhado escalar, não estava falando deles. Ele estava dizendo outra coisa.
Estava dizendo que existem montanhas dentro da gente.
Estava dizendo que, depois de certa idade, o desafio muda de forma. Que há cumes invisíveis, sem trilha, sem mapa, sem foto. Cumes que ninguém vê você subir. Cumes em que ninguém te aplaude no topo. Cumes em que o topo, aliás, talvez nem exista. Você sobe porque é preciso. Porque chegou a hora.
E ninguém precisa saber.
Pensei muito sobre aquilo. Sobre a coragem silenciosa de alguém que largou um lugar onde era reconhecido para entrar num lugar onde ninguém o conheceria. Sobre o desapego de não querer mais ser o pioneiro, o autor do guia, o nome citado em rodapé. Sobre o que é necessário deixar morrer dentro da gente para que outra coisa possa nascer.
A gente passa boa parte da vida adolescente agarrado a um personagem.
O viajante. O escritor. O esportista. O explorador. O mochileiro. Confundimos quem somos com o papel que aprendemos a representar, e por muito tempo isso até funciona. O personagem nos dá direção, comunidade, história para contar nos jantares. Ele responde, antes mesmo de a pergunta vir, quem é você.
Mas chega um momento, e eu acho que esse momento chega para todo mundo que vive de verdade, em que o personagem aperta. Em que a roupa não cabe mais. Em que continuar sendo aquilo passa a ser uma forma silenciosa de mentir. E aí você tem duas escolhas. Ou continua, e vai se desencontrando aos poucos, dando entrevistas sobre alguém que você já não é. Ou se despede, em silêncio, sem comunicado oficial, e segue para o próximo Annapurna.
Ele tinha escolhido o segundo caminho.
E ao fazer isso, ele tinha feito a maior escalada de todas.
Eu, do outro lado da tela, com meu projeto de livro, queria que ele voltasse a ser quem tinha sido. Queria, talvez sem perceber, congelá-lo no auge. Transformá-lo em monumento. E ele, com uma só frase, recusou de uma vez todos os monumentos que eu poderia construir.
“Na vida do homem, há outros Annapurnas”.
Hoje, tantos anos depois, com o corpo já avisando que algumas trilhas não vão se repetir, eu entendo melhor aquela mensagem. E entendo também por que ela ficou marcada. Não foi pela poesia da frase. Foi pelo que estava por trás dela.
Era um homem em paz.
Era um homem que não precisava mais provar nada para o meio que um dia foi o seu mundo. Que tinha trocado os cumes que se vêem pelos cumes que se sentem. Que tinha aceitado, com a serenidade dos que já caminharam muito, que a vida pede etapas, e que cada etapa tem seu próprio cume, e que o cume mais difícil de subir, quase sempre, é o que ninguém vê.
E penso que talvez seja isso, no fim. Envelhecer com inteireza não é parar de subir. É só descobrir, em silêncio, que há outros Annapurnas. Que a maior aventura não está no que se conta, está no que se vive. E que existe uma sabedoria muito particular, quase sagrada, em se retirar de cena quando a cena já não é mais a sua.
Ele me ensinou isso sem me dar entrevista.
Sem me deixar escrever sobre ele.
Sem me deixar, sequer, contar sua história.
Talvez essa seja, no fundo, a história mais bonita que ele poderia ter me dado.


















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