É 2026. Daqui a algumas semanas, embarco para Nova York. Em cima da mesa estão três coisas: o passaporte com o visto americano, o caderno de anotações do livro-reportagem que ando escrevendo há um tempo, e uma edição amarela de On the Road tão sublinhada que já não fecha direito.
Li o livro pela primeira vez aos 33 anos. Tarde, eu sei. Todo mundo na mochilagem leu antes — alguns aos 17, alguns no meio da primeira viagem solo, copiando trechos no caderninho como quem decora oração. Eu cheguei depois, quando já tinha andado bastante de mochila nas costas. Talvez por isso o livro tenha me pegado de um jeito esquisito.
Folheio agora. Os marcadores amarelos estão quase todos nos mesmos lugares: passagens em que Sal Paradise — o narrador, alter ego do Kerouac — está perdido. “Acordei quando o sol estava avermelhando; (…) realmente não sabia quem eu era por cerca de quinze segundos estranhos.” “Uma dor aguda me dilacerou o coração, como acontecia sempre que eu via uma garota que amava indo na direção oposta neste mundo grande demais.” É um Kerouac pequeno, triste, com sono. Não é o Kerouac do pôster.
Porque tem um Kerouac do pôster. Esse é o que a contracultura vendeu, o que a propaganda de mochila gosta de citar, o que vira tatuagem: o grito no topo da montanha, a estrada infinita, os mad ones. Esse Kerouac é mais cômodo. Ele não te conta que Jack morreu aos 47, alcoolizado, de hemorragia interna, na casa da mãe, em 1969. Não te conta que ele tinha virado conservador, defendia a guerra do Vietnã, achava os hippies uns bobos. O Kerouac do pôster é uma fraude charmosa — uma estrada masculina, branca, americana, com rede de proteção que o livro jamais menciona.
E ainda assim. Pego o avião mês que vem. Vou para Nova York com a edição amarela na mochila — porque ela ainda diz alguma coisa, mesmo depois que o mito caiu. Diz justamente aquilo que sublinhei sem perceber: que mesmo o cara que escreveu o manual da liberdade acordava sem saber quem era. Que mesmo no topo da América o que sobrava era gritar contra a noite. Que a estrada não cura ninguém, no máximo, te leva para outro quarto barato, com outro teto rachado, e outros quinze segundos estranhos.
O livro que estou escrevendo é sobre mochileiros brasileiros — gente que herdou alguma coisa dessa história, mesmo sem saber. Vou a Nova York atrás do Kerouac que existiu, não do que vendem. Talvez seja menos heroico. Aposto que é mais verdadeiro.
Marca. Arde. Queima.


















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