Não fui para ver o Cristo

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Tenho pouco mais de três horas para resgatar 22 anos de lembranças. Esse é o tempo que contabilizo observando o bilhete de acesso ao Cristo Redentor. Estou na Barra da Tijuca, na entrada do Shopping Città América, lugar onde sai o transporte até o Cristo. Pago 90 conto no ingresso pra chegar até lá.

Da van que me leva até o topo do Corcovado, vejo grande parte do Rio de Janeiro. A cada quilômetro rodado faço um resgate na memória. Fui pra lá apenas uma vez, aos dez anos de idade. Na época, estava com meus pais e irmãos, e lembro-me perfeitamente de tudo, de cada detalhe daquele dia de verão de 1995. Agora, duas décadas depois, volto por motivo de profissional, mas ainda assim encontro um tempo para subir novamente essa montanha, dessa vez, sozinho.

Estou quase lá em cima e vejo que o acesso mudou bastante. Quando fui, era uma bagunça danada. Recordo-me que era possível subir com o próprio carro. E, pelo que vejo, isso não acontece mais. Só vans autorizadas – e do próprio parque – que sobem essa bagaça. Existem catracas para validar o ticket, coisa que também não havia. Só possuía um pequeno recibo de cor azul e com a imagem do Cristo em marca d´água. Agora é tudo modernizado e controlado.

Faltam duas horas e vinte e oito minutos. Preciso terminar de subir. Pego uma escada rolante – bem dessas de shopping mesmo – e caio diretamente aos pés do Cristo. Nunca foi tão fácil subir uma montanha. O dia está bem quente, igual 22 anos atrás. Lá de cima, tudo está perfeitamente como antes. O chão parece o mesmo e a pequena mureta também. Tá tudo igual. Quase não olho para Cristo de pedra, dou atenção para um canto onde existe um valor simbólico ainda maior pra mim: o lugar onde tirei a foto junto com a minha família — um cantinho discreto, tímido, longe do alvoroço. Uma cena que ficou registrada por muitos anos sobre a estante da sala, enquadrada num porta-retrato. Uma saudade toma conta. Mas dura pouco. Sofro uma trombada que quase me faz cair, olho para trás e vejo um sujeito me atropelando com um pau de selfie na mão. Falo algumas coisas que não escreveria aqui, mas a pessoa não entende nada. É um gringo sem vergonha e mal-educado. Não recebo pedido de desculpas. E também não o desculparia.

A topada com o turista safado me faz refletir. Observo as pessoas com os celulares nas mãos e câmeras na cara. Não vejo ninguém admirando a rica paisagem do lugar, a maioria fica de costas para a visão panorâmica da cidade a fim de tentar uma selfie perfeita, ou uma filmagem que ficará guardada no celular enquanto o aparelho existir. Uma outra coisa me chama a atenção: turistas deitados para tirar a foto clássica-clichê-vagabunda. A cena me incomoda. Aliás, fico incomodado por estar incomodado. Percebo que ainda sou novo para defender hábitos da velha guarda, mas a modernidade às vezes me decepciona. E me decepciona também voltar ao Cristo sozinho, sem meus pais e irmãos. Um retorno impossível.

Tiro a câmera e faço algumas fotos. Me poupo de selfies, mas ainda assim me sinto um idiota e um tremendo de um hipócrita. Me pego tirando fotos como todo mundo. Penso nas imagens para o blog e de um post que talvez nunca farei, mas que não carregarei a culpa de, se um dia criar, não ter captado imagens suficientes. Me sinto satisfeito, não pelas fotos, mas por voltar a pisar em um lugar, onde, um dia, fui com as pessoas mais importantes da minha vida.

Desço as escadas, finalmente longe da muvuca, olho a vista escancarada de algum lugar do Rio de Janeiro. Fico alguns minutos ali parado, observando, pensando. Chego a conclusão de que envelhecer é viver momentos extraordinários e que a nostalgia nada mais é que uma bênção do tempo.



Rafael Kosoniscs tem 32 anos, é paulista, publicitário, guia de turismo, blogueiro e estudante de jornalismo. É viciado em viagens de mochilão — seja em cidades ou em meio à natureza. Tem o montanhismo como paixão, sonha em dar a volta ao mundo e escrever um livro.


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