Tempestade

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Era um dos melhores ônibus que havíamos pegado até aquele momento da viagem. Quinto dia pelo Peru, lugar que sempre tivera sonho de conhecer. Estávamos cansadas, passeamos pelo Vale Sagrado o dia todo, com suas escadas e caminhos de pedra. Agora já era noite e voltávamos para o hostel, numa longa estada. Chovia lá fora. Dezembro é época de chuva nessas regiões, já sabíamos. Ao meu lado, minha amiga dormitava e eu escutava no fone de ouvido alguma faixa do Dylan. 

Foi aí que começou. 

A chuva se intensificou e as parcas luzes da estrada e de suas espaças casinhas marginais se apagaram. Tinha faltado energia em toda região. Os raios e trovões iluminavam a estrada que o ônibus de viagem cortava sem medo. Lá fora era tudo escuridão, quando de repente um raio iluminava lá longe e tornava os campos ao redor visíveis. A paisagem era tão linda que me lembro de ter começado a descreve-la em meu diário de bordo, mas estava tão hipnotizada por toda aquela energia que não consegui me concentrar nas palavras. Não dava para tirar os olhos da janela. 

De dentro do ônibus era impossível sentir o cheiro da chuva. Mas eu imaginava como seria estar lá fora: terra molhada e vento, muito vento no cabelo. Outro trovão. Barulho e luz pela estrada. Era uma força descomunal, em um dos lugares mais energéticos que já estive. 

O Vale Sagrado dos Incas é uma região situada próxima a Cusco, que abrange vários sítios arqueológicos, cidades e povos. Visitar o local é descobrir a história da civilização que viveu ali. Dentre as ruinas que sobraram, aprende-se sobre construção de aquedutos, tecelagem, agricultura e engenharia. 

Naquele momento vendo a tempestade da janela não conseguia parar de pensar em Ollantaytambo. Se trata de um parque arqueológico do Vale Sagrado que havíamos visitado naquele dia mais cedo. Como tudo no Peru, o local me surpreendeu. Nos dias anteriores já havia visitado a capital do antigo império Inca, Macchu Picchu e me maravilhado com o pulsar de outrem que ainda existia no local. Ao pisar pela primeira vez lá, me emocionei involuntariamente e senti todos os pelos do corpo se arrepiarem. E foi assim também em Ollantaytambo. Pelas suas íngremes subidas, sentia um misto de fascínio com medo, uma mistura que não dá para descrever. Quase como se apaixonar por alguém à primeira vista, fui me apaixonando por lugares. 

Depois do tour guiado pelas ruinas, tivemos cerca de 20 minutos para fazermos fotos. Não me entenda mal, eu gosto muito dos registros, mas quando viajo, meus propósitos principais são outros. Então sem fotos naquele momento. Eu e minha amiga nos sentamos ao lado de nosso guia, que já era um senhor, com rosto de índio peruano, desenhado por marcas de expressão e um sorriso de anos de sabedoria. Pedi que ele me contasse mais sobre o local e sobre a ocupação espanhola na região, que eu, infelizmente, sabia tão pouco. 

As comparações com o Brasil eram inevitáveis. Morte, estupro, roubo, aprisionamento. Culturas massacradas.  

– Até hoje os índios no Peru são tratados como nada – ele me contou.  

Sorri: 

– No Brasil é a mesma coisa. Nosso povo foi dizimado por Portugal, mas parecemos nos esquecer disso. 

Ele me contou que era formado em arqueologia e se orgulhava de ter vindo de uma família pobre, com muitos irmãos. Sempre batalhou para conseguir as coisas na vida e hoje sua maior alegria era mostrar as belezas de seu país para pessoas que todos os lugares do mundo.  

– Mas hoje em dia as pessoas estão mais interessadas nas selfies – nos falava enquanto o sol batia em seu rosto -, estamos em um lugar histórico, mas poucos se importam.  

Aliás, em nossa frente, um grupo de jovens mexicanos que estavam conosco no passeio se divertia posando nas mais diversas posições em frente as ruínas.  

Já era hora de ir. Ainda teríamos mais passeios a fazer no dia. Mas antes de nos levantarmos, eu e minha amiga agradecemos ao guia pela aula e chegamos à conclusão de que todo o povo latino americano era irmão. Irmão de lutas, de batalhas que mesmo ditas perdidas nos livros de história, continuamos galgando para não perder. A história da família do guia, por exemplo, me lembrava a de minha mãe, primeira de 13 filhos a se formar na faculdade. Seu olhar profundo e paixão por repassar conhecimento, lembrou-me meu pai. Pessoas tão distantes uma das outras, mas tão próximas, tão iguais.  

É que as vezes tememos nossas origens. Visitar o Vale Sagrado me lembrou delas e creio que é o nosso encontro com essa história anterior a nosso nascimento que nos ajuda a descobrir quem somos e o que nos levou até ali. Não sei de muita coisa da vida, mas vendo a chuva cair pela janela do ônibus e os raios iluminando o campo, me senti mais perto de mim mesma do que poucas vezes já estive.  

Às vezes na rotina louca de São Paulo começa a tocar Dylan no rádio e me pego voltando a ser a menina fitando a chuva na estrada, pensando sobre injustiças, história e América Latina. Viajar é construir memória, construir repertório, conhecer gente e crescer por dentro a cada esquina. Quando você for visitar o Vale Sagrado, vá de coração aberto, que com certeza, sairá de lá diferente do que chegou. 



Ana Beatriz, ou Bia, tem 20 anos e mora no centro de São Paulo. É uma jornalista em formação, mas principalmente de coração. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.


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